Fernandes exclusivo: "Malásia precisa de um piloto local na Fórmula 1"

Para o dono da Lotus, que tem um programa de jovens pilotos, só assim o país se consolidaria como uma nação importante na categoria

Tony Fernandes aposta no sucesso da Lotus a longo prazo:

 

Quando a Fórmula 1 anunciou que faria seu primeiro GP da Malásia em 1999, muita gente criticou a categoria por apostar num país tão exótico e sem tradição no automobilismo. Mais de uma década se passou e hoje a categoria conta com uma equipe cujo proprietário é do país, a Lotus. E com três empresas malaias que são patrocinadores de peso: Petronas (Mercedes), Proton (Renault, através da marca Lotus) e a Air Asia (Lotus).

O TotalRace falou com Tony Fernandes, o dono da Lotus, sobre o papel do país categoria. Para ele, só a chegada de um piloto malaio consolidaria de vez a presença de uma das nações “emergentes” no cenário da F-1.

TOTALRACE: Você acha que a Malásia já se estabeleceu como um dos países fortes na Fórmula 1?

TONY FERNANDES: Acho que, sem dúvida, do ponto de vista estrutural. Mas acho que para ser um país completamente integrado à Fórmula 1, precisamos de pilotos. Temos o hardware, precisamos do software. Estamos presentes em equipes, embora no caso da Mercedes com a Petronas e da Renault com a Proton, é só uma questão de patrocínio. Pelo menos aqui, a equipe é propriedade de malaios. Então o próximo passo é produzirmos os nossos pilotos. Então estamos indo na direção certa.

TOTALRACE: E o que fazer para isso em termos práticos?

FERNANDES: Estamos iniciando um programa de jovens pilotos. Tentamos antes com Fairuz (Fauzy, hoje piloto de testes da Renault), mas achamos que ele não estava pronto. Tenho uma relação com a Arden, a equipe de Christian Horner na GP3; temos a equipe da GP2, que tem o Luiz Razia; e trabalhamos também apoiando gente no kart. Vim da indústria da música e sei que leva tempo para desenvolver pessoas. Temos a Lotus, muita gente animada com nossa evolução, mas sou um realista. É preciso dar tempo ao tempo. Estamos num voo de longa duração, mas se tem um esporte onde atletas do sudeste asiático podem brilhar, é o automobilismo. Somos uma região pequena, mas temos habilidade mental e agora temos alguns circuitos. Só o que ainda falta na Malásia é termos mais categorias em diferentes níveis. Este será o desafio que o automobilismo na Ásia vai precisar enfrentar.

TOTALRACE: Você acha que fazer uma corrida noturna em Sepang seria a medida necessária para trazer o público de volta para o GP de F-1 acontecer com arquibancadas lotadas?

FERNANDES: Não, não acho que seja essa a solução. Volto a insistir na questão dos pilotos. Veja o que aconteceu no motociclismo: pegamos um piloto local para apoiá-lo até ele chegar nas 125 cilindradas. Agora ele está correndo e tivemos o maior público da história da MotoGP na Malásia, 60 mil pessoas. No final das contas, acho até que o público nesse ano vai ser bom por conta de toda a controvérsia envolvendo o nome Lotus! (risos) Mas o sucesso depende do software. Ninguém pode me convencer do contrário. Você vê na Espanha: por causa do sucesso de Fernando Alonso, até os testes ficam lotados! No Brasil também, a Copa do Mundo está indo para lá por causa da tradição de bons jogadores, não pelo Maracanã. Acho que estas nações secundárias que estão sofrendo com público, como Malásia ou China, precisam que talentos locais se estabeleçam, o que mudaria completamente isso. Cingapura é um caso à parte, porque o país é muito pequeno, é como se fosse Mônaco.

TOTALRACE: Você já esteve na indústria musical, depois criou sua companhia aérea e agora está também na Fórmula 1. Todos ambientes conhecidos por serem muito duros. Como você os compara?

FERNANDES: São muito parecidos, muito mesmo. Muita política, muito puxa-saquismo, indústrias de alta performance e com muito capital. Há muitas coisas similares e poucas diferenças. Se você tiver as pessoas, a fórmula e a paciência certas, você pode chegar no topo. Não tenho dúvidas que temos boas pessoas e estamos nos fortalecendo em alguns pontos. As pessoas se esquecem que temos apenas 18 meses de vida. A Red Bull comprou a Jaguar, que era a Stewart, e ainda assim demorou cinco anos para chegar onde estão. Roma não foi feita em um dia. Mas eu adoro esse desafio! Escolhi indústrias difíceis, talvez eu tenha uns parafusos a menos. Mas você começa a entender as estratégias comerciais do que estamos fazendo. Isto aqui não é um passeio, você tem que construir um negócio que seja sólido. Sim, eu adoro corridas como adoro aviões. E todos acharam que eu estava louco quando comprei uma linha aérea por 25 centavos, mas hoje ela vale 3 bilhões de dólares. Acredito que há o mesmo potencial nessa equipe de Fórmula 1 e todos verão isso aos poucos. Mas para resumir uma longa resposta para uma pergunta curta: o principal, para mim, está nas semelhanças entre estas indústrias. De certa forma, a musical e da aviação comercial me deram um ótimo treino para a Fórmula 1.

TOTALRACE: Esta briga pelo uso do nome Lotus tirou de alguma forma o foco de preparação da equipe para este ano?

FERNANDES: Bom, tirou o meu foco com certeza! E isto significa que minha liderança não estava o tempo inteiro concentrada na equipe. Seria louco dizer o contrário. Mas tem um lado positivo: o que está acontecendo vai deixar a equipe mais unida. Isso equilibra um pouco as coisas, mas ainda assim o efeito dessa briga toda no nosso trabalho é mais negativo do que positivo, sem dúvida. Mas esse assunto vai terminar em breve.

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