Há 15 anos, Rubinho tinha seu dia de Senna em Hockenheim; relembre

Barrichello colocou fim a jejum de quase sete anos com apresentação soberba saindo de 18º na pista molhada na Alemanha

Foi em um dia 30 de julho que o Brasil voltou a festejar na Fórmula 1 depois de um longo período amargo. As manhãs dominicais, acostumadas a glórias nas pistas, vinham carentes após a morte de Ayrton Senna, em 1994. No maior jejum de vitórias desde que vencera uma prova na principal categoria do automobilismo, em 1970, com Emerson Fittipaldi, o país aos poucos perdia as esperanças de voltar a ouvir seu hino.

Mas em Hockenheim, no ano de 2000, Rubens Barrichello viveu um dia de mágico. Questionado após anos em que batera na trave várias vezes, ainda que em equipes apenas médias, o brasileiro criou um elo com o "efeito Senna" nos domingos. Triunfou de forma magistral diante de inúmeras adversidades e fez com que o Brasil mais uma vez se emocionasse ao ouvir o famoso "Tema da Vitória" da TV Globo e o Hino Nacional no pódio mais uma vez, alegria que havia se perdido após um domingo trágico em Imola.

Passados 15 anos, Rubinho relembrou detalhes daquele domingo especial em entrevista exclusiva ao Motorsport.com. "Após a corrida, só pensava em meu pai e no 'Chefe' [Senna]."

Começo difícil

A expectativa para o GP da Alemanha não era das mais altas. Principal piloto brasileiro no grid, Barrichello saía de 18º no grid com sua Ferrari. Pela primeira vez em um carro vencedor, o piloto ainda não havia conseguido a sonhada e esperada vitória até ali e já era cobrado pela torcida.

Sua Ferrari quebrou no início da classificação e Barrichello foi obrigado a fazer sua volta rápida com pista molhada. Mas a sorte estaria do seu lado no domingo – um dia memorável.

Já na largada, Michael Schumacher se envolveu em um acidente com Giancarlo Fisichella, fato que favorecia o brasileiro. Líder do mundial e saindo de segundo, Michael teria atenção especial do time durante aquele GP.

Mas não foi só a Ferrari que passou a prestar mais atenção em Rubinho: o brasileiro foi o nome das primeiras voltas, utilizando seu bom carro para se recuperar. Na primeira volta ele já passou em 10º lugar. Ele ainda ultrapassaria Zonta, Villeneuve, Irvine, Herbert e Verstappen para ser o quinto já na volta 6.

Reviravolta

Com as duas McLarens de Hakkinen e Coulthard abrindo na frente, a posição natural para Rubinho seria o terceiro, já que ele – apesar de ter optado por largar com menos combustível e fazer uma parada a mais – já havia passado De la Rosa e Trulli na pista em seu primeiro stint.

Mas, na volta 25, um ex-empregado da Mercedes-Benz resolveu entrar na pista para fazer um protesto contra a montadora que fornecia motores à McLaren. Com a necessidade da entrada do Safety Car, Barrichello, que já havia feito uma parada, fez reabastecimento para ir até o fim enquanto todos os outros pilotos faziam sua única parada da prova.

Rubinho saiu atrás de Hakkinen (líder) e Trulli. Após o reinício da prova, uma chuva crescente começou a cair em parte da pista de Hockenheim. Vendo os concorrentes à frente indo aos pits trocar pneus e apenas uma parte da pista molhada (o “estádio” de Hockenheim), Barrichello decidiu apostar em se manter correndo de pneus slicks. “Fui contra a vontade da equipe, que era trocar os pneus”.

A decisão de Rubinho se provou acertada, já que, como a chuva não caia com grande intensidade na maior parte da pista, Mika Hakkinen não conseguia tirar diferença suficiente para alcançá-lo antes do fim da prova. “Nas duas últimas voltas chovia muito. Tive medo (de ter feito a escolha errada). Mas ali era tarde demais. Me dediquei mais ainda aos trechos mais secos e tomei dez vezes mais cuidado no molhado”, recordou o ex-piloto da Ferrari.

Cumprindo as 45 voltas do GP da Alemanha mais de sete segundos à frente de Hakkinen, Rubens garantiu sua primeira e mais emocionante vitória na F1 após ter largado de 18º. O Brasil não ganhava uma corrida desde 1993 com Ayrton Senna, até então seu maior jejum (quebrado após a prova de Silverstone deste ano).

Emoção no pódio

Após a bandeirada, Barrichello realizou efusiva comemoração ainda dentro de seu carro. Enquanto isso, o torcedor brasileiro que acompanhava a transmissão de Galvão Bueno vibrava ao ouvir mais uma vez o "tema da vitória", marca nos triunfos de Senna. Será que o piloto pensou em detalhe como esse diante do turbilhão que vivia em Hockenheim? “Já tinha chorado tudo o que podia dentro do carro. Quando estacionei no parque fechado lembrei do tema da vitória, acabei chorando tudo de novo”, disse Barrichello.

Do parque fechado ao pódio Rubinho se recompôs. Estava emocionado, mas o choro havia sido contido, ao menos até o início do hino, quando explodiu novamente. "Naquele momento no pódio eu lembrei do meu pai. O sofrimento dele comigo. Lembrei dele vendendo o nosso Fiat para que eu corresse em 1987. Aí sim não aguentei”, contou. “Pensei muito no Brasil, no meu pai e, logicamente, no 'Chefe' [Ayrton Senna].”

A cena de Rubens olhando para o céu e chorando ficou eternizada na história do esporte. Como não poderia ser diferente, o dia é inesquecível para ele. “Com certeza foi a melhor maneira de ganhar minha primeira prova. Foi 'a corrida'. Ela demorou, mas chegou em grandíssimo estilo. Hoje em dia, quando eu ouço o 'tema da vitória', lembro daquele dia.”

Do dia especial, Rubinho tem apenas um item guardado. “Eu guardei o capacete. Não sou muito de guardar souvenir, mas depois que terminei essa corrida coloquei o capacete na estante.”

O paulista ainda venceria mais dez corridas na Fórmula 1, sendo a última delas em Monza, 2009, pela Brawn, que também é a última do país na categoria.

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