Jenson Button: "uma corrida não são 30 voltas, são 60"

Inglês fala ao TotalRace sobre o pai, o interesse da namorada por F-1, as lutas com Hamilton e a identificação com Prost

Button conquistou na Hungria sua 11ª vitória na carreira

Sexta-feira, Budapeste, Hungria. Às 18 horas locais, Jenson Button é aguardado em uma mesa no motorhome da McLaren para atender três jornalistas. Cinco metros adiante, outra mesa, com mais três profissionais, exibe a placa com o nome de Lewis Hamilton. Há um certo atraso e a assessora da equipe, a competente Silvia Hoffer, informa que a demora se deve ao briefing dos pilotos.

Quando os dois chegam, Button se dirige à sua posição, cumprimenta os jornalistas, olha nos olhos dos três, pergunta de onde são e com sorriso na cara emenda: “Vamos começar?”, como quem de fato se interessa pelo o que está por vir.

Nos 20 minutos seguintes, o campeão do mundo de 2009 falou sobre os mais variados temas, desde a criação que recebeu de seu pai, o namoro com a bela Jessica Mishibata, a admiração por Alain Prost, as disputas com Hamilton na pista, os amigos de infância que o acompanham até hoje, os erros em sua trajetória e o que fazer quando pendurar as sapatilhas: “acho que tenho muito a ensinar a jovens pilotos”.

PERGUNTA: Em 2009, você começou a temporada mais ou menos como Sebastian Vettel. Do meio do ano em diante, sofreu um pouco. Você acha que as coisas podem ser mais difíceis para ele daqui para frente, com mais pressão?
JENSON BUTTON: Com certeza ele tem menos pressão do que eu porque ele já ganhou um campeonato, é uma situação muito diferente. Acho que você não sente tanto a pressão quando já é campeão e tem tamanha vantagem. Não será fácil para Vettel ganhar corridas consistentemente até o final do ano. Mas, ainda assim, ele tem uma grande folga, muito maior do que eu tinha. É uma ótima posição para se estar. Ele nem precisa de todas as corridas. Não sei se este será o caso, mas Sebastian não precisa, contando que continue guiando um carro competitivo – o que acho que será. Eles têm os recursos, o poder, o pessoal, o conhecimento para assegurar que a Red Bull continuará sendo um grande carro durante a temporada. É uma situação muito diferente em relação ao que aconteceu comigo. Não acho que ele vai sentir muito a pressão.

PERGUNTA: Quando um piloto tem uma grande liderança e os outros começam a se aproximar, é uma pressão ainda maior sabendo que tem essa vantagem e que não pode perdê-la?
JENSON BUTTON: Se eu tivesse a vantagem que ele tem, não me sentiria nem um pouco sob pressão. Sentiria-me em uma ótima posição. Você tem de pensar que, em um campeonato de oito corridas, você tem 80 pontos – não sei quanto é (diferença de Vettel para segundo colocado é de 85 pontos) – a mais que todos os outros. É uma distância enorme. Ele ainda está em um dos carros mais rápidos, se não o mais rápido, então é a melhor posição possível.

PERGUNTA: Com qual piloto você mais gosta de duelar na pista?
JENSON BUTTON: Gosto de lutar com Fernando [Alonso], é um cara divertido para se disputar. Já tive grandes batalhas com ele há muito tempo, nas primeiras partes de nossas carreiras. Mas sempre gostei de lutar com Michael [Schumacher], especialmente quando ele estava na Ferrari. Você sabe que será difícil, mas é sempre prazeroso – ainda mais quando você vence. Brigar com o companheiro de equipe é um pouco diferente, mas, mesmo assim, Lewis [Hamilton] e eu tivemos algumas boas batalhas e tenho certeza de que teremos muito mais. Só nos tocamos uma vez, no Canadá. Há vários pilotos contra quem gosto de correr. Pilotos que estão em carros competitivos, quando os tempos de volta são parecidos: é aí que você tem uma boa briga. Você o passa, ele devolve algumas voltas depois e você tenta de novo. Para mim, este é o melhor tipo de corrida. É ótimo ser meio segundo mais rápido que o outro e o ultrapassar, mas o que dá mais prazer é superar um carro cujo ritmo é relativamente similar ao seu. É bom brigar com Fernando e Lewis. Mark [Webber] é provavelmente o mais difícil. O jeito dele de pilotar é diferente. Ele posiciona seu carro muito bem. Sebastian [Vettel]... não tive muitas brigas com ele. Acho que ele nunca me ultrapassou e nem eu tive muitas oportunidades de passá-lo.

PERGUNTA: E Lewis? Dezoito meses depois, é mais duro do que você achava que seria?
JENSON BUTTON: Em relação às ultrapassagens, não. Ele me passou várias vezes e eu o passei várias vezes. Acho que temos um respeito mútuo em termos de dar espaço um para o outro. Se ele me passa, eu luto para voltar, e vice-versa. A corrida da Turquia, neste ano, foi um grande exemplo disso.

PERGUNTA: E a disputa na Turquia ano passado? O que foi aquilo?
JENSON BUTTON:
Acho que foi um mal entendido a respeito do que nos disseram para fazer no rádio. Mas nesse ano foi muito divertido na Turquia.

PERGUNTA: Lewis é um grande fã de Senna e você é um grande fã de Prost. É engraçado porque os estilos de vocês refletem isso. Dá para comparar você e Lewis com Senna e Prost?
JENSON BUTTON: Diria que nós dois temos um estilo que vai na mesma direção que Alain e Ayrton.

PERGUNTA: No Canadá, você teve uma performance fantástica. Aquele foi um Jenson diferente, mais agressivo?
JENSON BUTTON: Nem um pouco diferente. E as outras corridas que ganhei? Você diria que fui mais agressivo e é por isso que ganhei?

PERGUNTA: Não, é que parece que você estava inspirado.
JENSON BUTTON: O carro estava ótimo e as condições climáticas funcionaram para mim, o que é exatamente como em todas as outras corridas que ganhei. É como funciona. Você não muda seu jeito durante uma corrida, você às vezes se encontra em uma posição em que pode explorar suas qualidades.

PERGUNTA: Você é o piloto mais elegante hoje. Você acha que nos anos 1970 e 1980 havia mais estilo, mais glamour?
JENSON BUTTON: Definitivamente havia mais glamour nos anos 1970 e 1980 fora do carro. Dentro, houve pilotos incríveis em todas as décadas, em todas as eras. Mas alguns pilotos ficaram marcados por serem elegantes em seu estilo de pilotagem. Acredito que Stirling Moss era um deles – era um tipo de carro muito diferente, então é difícil comparar. Moss deslizava, e acho que ainda faz quando pilota agora. Gosto deste estilo. O mesmo com Alain. Ao fim de uma temporada, provavelmente você diria que Ayrton era mais rápido, em termos de velocidade em uma volta, mas Alain podia ganhar por outras coisas, por ser mais rápido durante toda a corrida, por uma hora e meia, ao invés de um minuto e meio. Porque ele pilotava de uma maneira diferente que talvez o ajudasse a cuidar dos pneus, do carro ou dele mesmo. A corrida não é só uma volta, não é o quão rapidamente você chega à volta 30, mas sim à volta 60, na bandeirada. Isso é fundamental.

PERGUNTA: Muitos jornalistas comentam que você e Sebastian, mesmo sendo campeões do mundo e ricos, são pessoas normais, ao contrário de outros. Como você faz para manter seus pés no chão?
JENSON BUTTON: Muito disso vem das pessoas que lhe cercam e a maneira como foi criado. Sempre trago bons amigos para os circuitos, meu fisio é um grande amigo. Minha família está sempre aqui, minha namorada vem quando ela não está trabalhando, o que é ótimo, e convido amigos da época de escola, de quando comecei no kart. São pessoas muito próximas que me conhecem. E se eu sair da linha, eles sempre me puxam de volta. Todos trabalhamos duro, tentamos dar o melhor que podemos e acho que deve haver um respeito mútuo.

PERGUNTA: Sua namorada gosta de vir às corridas? A mulher do Alonso disse que é muito chato.
JENSON BUTTON: Ela realmente gosta. Entendo que às vezes a F-1 possa ser um pouco entediante para as namoradas, mas ela tem muitos amigos aqui, as namoradas dos outros pilotos e o pessoal da equipe. Ela se dá muito bem com meus amigos e minha família. Acho que se diverte muito. Ela tem a memória de um elefante. Lembra de tudo, das telas de tempo – e eu ainda dou várias informações para ela. Provavelmente é uma boa pessoa para entrevistar para saber como o carro está. É legal que ela se interesse pelo meu trabalho. E nós também fazemos triatlo juntos, então é outro hobbie que temos em comum. Acho que ela se esforça bastante para gostar das coisas que eu gosto.

PERGUNTA: Depois de sua vitória no Canadá, você foi para Las Vegas. Qual lugar vai visitar depois da Hungria?
JENSON BUTTON: Vou para o Havaí. Quando fui para Vegas, foi planejado porque um amigo que foi comigo para a corrida casaria em um sábado. Assim, na na segunda-feira aproveitamos para fazer sua despedida de solteiro, só com amigos mais próximos, em Los Angeles e Las Vegas. Foi muito divertido, mas tive de sair mais cedo para me aprontar para a corrida seguinte.

PERGUNTA: Felipe tem uma categoria no Brasil, e o pai dele criou a regra de que os pais, em alguns momentos, não podem estar junto dos filhos porque em alguns caos poderiam ser um problema para as crianças. Como era a relação com seu pai? O quão importante ele foi para sua carreira?

JENSON BUTTON: Ele ama a F-1 desde antes de eu chegar aqui e provavelmente estaria envolvido mesmo se eu não estivesse. Mas ele nunca me forçou a fazer nada, sempre me dizia que, se não quisesse mais fazer isso, poderia descansar ou desistir, a escolha era minha. Ele nunca me obrigou a nada, o que acho que foi bom. Sou o tipo de pessoa que, se alguém me força a fazer algo, não faço. Muitos pais no kart são problemas para as crianças, mas também há o problema de não ter o pai junto e a criança ser diferente do que deveria ser. O melhor é ter um pai que entenda todas as situações e que não o force na sua carreira. Tirar os pais da equação é difícil porque você fica sozinho e cresce mais rápido, mas talvez não se torne a pessoa que gostaria, porque não tem seu pai para apoiá-lo.

PERGUNTA: Seu pai é um modelo para muitos outros...
JENSON BUTTON: Provavelmente é. Ele provavelmente é mais festeiro do que deveria agora, que tem mais de 60 – não posso dizer a idade dele (risos). O cara tem a melhor vida. Ele não tem de trabalhar, só brinca o tempo todo. Mas meu pai se afeta mais com um final de semana ruim do que eu. Na Alemanha, ele ficou muito triste. Já eu consigo superar, penso que posso melhorar na próxima corrida. Para ele é mais difícil porque não pode fazer diferença. É muito difícil para ele quando eu perco e também, quando ganho, pois vai festejar mais do que qualquer outro.

PERGUNTA: Qual piloto você convidaria para comer um bolo de aniversário com você? Qual é seu amigo?
JENSON BUTTON: Se eu tivesse no paddock, convidaria todos, mas se estivesse em casa, não chamaria nenhum. Não encontro outros pilotos, mas não porque não goste deles, e sim porque tenho outros amigos em casa. É bom esquecer a F-1 de vez em quando.

PERGUNTA: Você parece andar com gente que conhece faz tempo.
JENSON BUTTON: Não tenho amigos novos, é estranho. Talvez seja ruim em fazer novos amigos, não confio em pessoas que não conheço. Meus amigos me zoam da mesma maneira de quando eu era moleque. Você sabe quando tem bons amigos ao discutir. Discutir é bom. Mas tenho amizade com vários caras no paddock. Se estiver treinando em Mônaco, chamo Nico, Wurz. Provavelmente sairia para pedalar com Timo Glock, mas sairia com eles mais para treinar, não o chamaria para tomar cerveja.

PERGUNTA: Você já pensou no que vai fazer quando parar de correr na F-1?
JENSON BUTTON: Richard, meu empresário, está pensando no que eu devo fazer. Mas eu não. Tenho tantos anos pela frente. É mais importante pensar no momento, no que vou fazer no acerto do carro amanhã para ter certeza de que serei o mais rápido. Esse é meu pensamento agora. Mas tem algumas coisas que poderiam acontecer em paralelo à minha carreira, que seria o empresariamento de pilotos. Acho que tenho muito a dar para os jovens e acho que eles me ouviriam. Já experimentei de tudo na F-1 e no automobilismo. Acho que se um empresário disser para um moleque que ele tem que agir de determinada maneira, ele não vai ouvir, mas de um piloto campeão do mundo de F-1 é diferente.

PERGUNTA: Você é um bom exemplo, pois não me lembro de controvérsias envolvendo seu nome....
JENSON BUTTON: Foram muitas, geralmente de contrato (risos). Sei o que não fazer com eles. E não odeio Frank (Williams), mesmo que ele tenha muito do meu dinheiro. Acho que ele ainda é um grande personagem.

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