Marko: "A força mental de Vettel cresce com o tamanho da tarefa"

Consultor que descobriu o bicampeão garante ao TotalRace que alemão ainda não se desenvolveu por completo

Marko e Vettel

Helmut Marko é uma figura que, ao mesmo tempo, impõe respeito e assusta. Um sujeito alto, sisudo, com a expressão facial sempre séria e enigmática, talvez pelo olho de vidro que carrega desde o acidente sofrido no GP da França de 1971 em Clermont-Ferrand. Mas ontem em Suzuka ele estava sorridente e afável. Vestindo boné e camiseta comemorativas do bicampeonato de Sebastian Vettel, ele admitiu numa conversa com o TotalRace o quão orgulhoso se sentia de ver onde uma aposta sua havia chegado. Confira a entrevista.

TR: Esta temporada mostra que Sebastian Vettel é o melhor piloto do grid?
HM:
Em primeiro lugar, não gosto de comparar nossos pilotos com os outros. Nos concentramos apenas naqueles com quem trabalhamos. Ninguém poderia imaginar o quão bom Vettel seria nos seus primeiros anos e ainda não estamos no final de seu desenvolvimento. Em cada categoria que ele passou ele foi rápido imediatamente e, quando ele tinha algumas fraquezas, isso só acontecia por períodos curtos. Ele as percebia e mudava o que era necessário. Sua força mental cresce com o tamanho da tarefa que ele tem de cumprir. Quanto mais pressão, você pode ter a certeza que ele fará o seu trabalho, enquanto outros pilotos acabam falhando. Isso parece inspirá-lo.

TR: É possível encontrar um novo Vettel dentro desse trabalho de forjar novos talentos?
HM:
Nós temos a filosofia de que cada um de nossos pilotos é um indivíduo. Temos Vettel, temos Webber e os pilotos juniores. Nós não os treinamos a como falar, como se comportar ou como pilotar. Apenas buscamos desenvolver suas características individuais. Não estamos procurando por um novo Vettel. Estamos procurando por um novo piloto de Fórmula 1 que seja competitivo. Não vamos buscar um clone. Achar alguém melhor que ele? Se encontrarmos um que seja similar, já estaríamos satisfeitos (risos).

TR: Até onde pode chegar o mais jovem bicampeão mundial?
HM:
Ainda é cedo demais para saber. Ele é um jovem muito determinado e muito trabalhador, o que talvez seja subestimado por algumas pessoas. Acho que quase todo o paddock já tinha ido embora ontem e ele ainda estava discutindo com seus engenheiros. É algo que não acontece por acidente. Vettel tem talento, tem a atitude certa e vamos ver como isso se desenvolve. E há muita tecnologia envolvida. Hoje em dia são muitos botões e muitas possibilidades. Ele conhece todas elas e pode conversar no mesmo nível dos engenheiros, podendo exigir o máximo deles.

TR: Como é possível um piloto de tanto sucesso conseguir manter a humildade e ser acessível o tempo todo?
HM
: Ele vem de uma família que fez tudo o possível - e eles eram longe de serem bem de vida - para que seu filho tivesse uma carreira no automobilismo. E isto é algo que ele nunca esqueceu, isto o tornou uma pessoa com os pés no chão. Um cara normal.

TR: E sua força mental, acima do normal para um piloto de sua idade, como explicar?
HM:
Uma coisa que acontece nessa equipe é que cada um fala o que acha necessário e é escutado. Vettel precisa sempre de dois ou três dias depois das corridas sem nenhum tipo de atividade para recuperar sua força mental. Ele é assim e não há outra receita que o faça chegar tão bem a cada grande prêmio.

TR: Você não tem medo de que um dia ele seja mais famoso que a própria Red Bull?
HM:
Não, pelo contrário. Venderemos ainda mais latinhas! É por isso que estamos na F-1. O que a Red Bull atingiu em sua curta história é algo difícil de entender. Mesmo que você vá à países em que o automobilismo é desconhecido, a Red Bull é conhecida. Mas é uma boa combinação. Vettel é um piloto que descobrimos e levamos até o topo. É normal um ser humano ser mais popular que uma marca, mas no momento não temos problemas com isso e não vejo porque ter no futuro.

TR: Mesmo sendo uma marca de bebidas energéticas, ser um sinônimo de tecnologia e sucesso na Fórmula 1 - como Ferrari, McLaren ou Williams - não é um objetivo de vocês?
HM :
Veja bem: a Red Bull está na Fórmula 1 por razões promocionais. Durante muito tempo fomos patrocinadores na Sauber. Depois veio a decisão de ter uma equipe própria, com o sonho de ter sucesso na categoria. Sucesso poderia significar vencer uma corrida, ficar entre os três primeiros ou algo assim. Quando começamos, as regras eram diferentes: você poderia usar a mesma tecnologia em diferentes equipes - no nosso caso seria na Toro Rosso. E foi por isso que criamos o braço da Red Bull Technology. Agora a regra mudou e, ao mesmo tempo, nosso know-how se tornou valioso. Assim, estamos vendendo tecnologia por questões comerciais, não para ganhar uma reputação tecnológica. Não vendemos carros, então não é nossa intenção seguir o mesmo caminho da Ferrari, Mercedes e McLaren.

TR: E o que representa este segundo título mundial de pilotos para o time?
HM:
Um segundo título é uma confirmação do nosso trabalho. A primeira vitória e o primeiro título é sempre vista, digamos assim, como “sorte de principiante”. Com esse segundo título, e de uma maneira soberana, fica claro que toda a equipe é profissional e bem-sucedida.

TR: Dá para imaginar em 2012 uma temporada ainda melhor do que esta, em que vocês conquistaram todas as pole positions e venceram dois terços das corridas até agora?
HM:
No ano que vem será completamente diferente. Pense como era com os dutos de ar ou o difusor soprado: se algum gênio tiver uma boa ideia, muda tudo. Estamos nos preparando da melhor maneira possível. Parte disso está no desenvolvimento de algumas partes para o carro do ano que vem. Mas só saberemos onde estamos na primeira corrida. Não estamos pensando em recordes, apenas encarando cada corrida individualmente para fazer o melhor trabalho possível.

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