O encontro com a morte: pilotos passam por experiência inédita em Hungaroring

Pela primeira vez na história, a Fórmula 1 tem um grid que jamais testemunhara um óbito, mesmo com todo o trabalho já feito em benefício da segurança do esporte

Desde o início, a Fórmula 1 convive com a sombra da morte rondando a cada GP. Até hoje, foram 37 em toda sua rica história, sem contar as edições em que aconteciam as 500 Milhas de Indianápolis e quando só pilotos ligados à USAC podiam competir. Na década de 1970, a expectativa de óbito era muito grande e quem começava o ano, muitas vezes não terminava. A morte de Riccardo Paletti, em 1982, no GP do Canadá, marcou a última fatalidade durante uma prova antes de Roland Ratzenberger e Ayrton Senna. Já em 1994 o grid era composto em sua maioria por pilotos que nunca haviam testemunhado um acidente fatal na Fórmula 1. A única exceção era Andrea De Cesaris, que esteve em Ímola e que também havia participado da etapa canadense no início da década anterior.

Com o tempo, a sensação de segurança, como super-homens, foi aumentando, já que a categoria investiu muito tempo e dinheiro na melhoria da segurança e 21 anos depois do fatídico GP San Marino de 1994, a Fórmula 1 viu um competidor falecer em decorrência de uma acidente durante uma prova.

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Todo o grid já havia mudado e, de certa forma, os pilotos foram perdendo a percepção dos riscos, até desafiando o perigo, como a declaração feita por Kimi Raikkonen há algumas semanas, quando disse que a Fórmula 1 poderia ser mais perigosa.

Mas será que os pilotos da atual geração foram tomados pela sensação de que "nada vai acontecer comigo"? Como estava o clima entre eles no fim de semana do primeiro GP pós-morte de Jules Bianchi? 

O piloto da Red Bull, Daniel Ricciardo,falou sobre se imaginava presenciar uma morte na pista: "Para ser honesto, não. Com o tempo vocês esquece dessas coisas, você sabe dos riscos, mas também sabe que o esporte desenvolveu muito a segurança e acaba esquecendo dos riscos." Mesmo assim, o piloto australiano ressaltou que a segurança é um tema recorrente nas reuniões da GPDA: "Conversamos bastante sobre isso nas reuniões da GPDA. Os pilotos mais experientes conseguem ver algo, como a posição de uma barreira na pista, por exemplo. Quando se é mais novo você acha que nunca vai acontecer e só quer saber de correr. Mas ainda há muitas pessoas tentando tornar esse esporte o mais seguro possível."

O companheiro de Ricciardo, Daniil Kvyat, teve que ser acalmado por Christian Horner antes do GP da Hungria deste domingo após as homenagens à Bianchi antes do início da prova, como o Motorsport mostrou na segunda-feira.

O clima realmente era diferente dentro dos vários ambientes em Hungaroring. A cada entrevista, uma lembrança do amigo que se foi. Ao falar sobre a performance do carro, uma lembrança: "Pra mim é difícil falar algo, perdi um amigo. Quando aconteceu o acidente, fiz uma oração pedindo a Deus para que ele voltasse o mais rápido possível , mas infelizmente é a vida. É muito difícil, é chocante, mas é a vida. Agora é tentar manter o foco em fazer algo bom na pista em respeito a sua memória," disse Pastor Maldonado, da Lotus.

Quem também quis homenagear o amigo Jules Bianchi com boas atuações foi Felipe Massa:"Durante a prova estive sempre pensando nele, toda hora pedindo proteção, enfim, não foi um momento fácil para nós. Tentei dar o meu melhor na pista por ele."

Para a maioria dos pilotos as circunstâncias que levaram à morte de Jules foram atípicas: "Foi um acidente único, com certeza. Talvez se fosse somente uma barreira de pneus ele estaria bem agora, mas temos que olhar para frente e se certificar de que não haverá nenhum outro tipo de obstáculo que poderá trazer o mesmo resultado," disse Ricciardo.

Todos os pilotos ouvidos pelo Motorsport.com fizeram questão de ressaltar como a segurança melhorou nos últimos anos. Mesmo assim, Will Stevens, da Manor, alertou: "Isso sempre será assim, é impossível termos um esporte 100% seguro. Mas basta ver como nos últimos 15 anos como a segurança melhorou."

O fato deixou até mesmo Fernando Alonso, um dos mais experientes do grid atual, chocado: "Estou há muitos anos na F1. Uma fatalidade como essa em Suzuka no ano passado foi a primeira perda em minha carreira. Definitivamente esse é um momento muito triste."

A palavra de quem esteve lá

Jornalista do Motorsport.com, Jonathan Noble também deu seu depoimento do primeiro final de semana após a morte de Bianchi. Para o britânico, foi muito emocionante ver a família de Bianchi na pista.

"O que eu diria é que a Fórmula 1 voltou à ativa com o coração pesado. Como todos sabemos, a vida continua", iniciou.

"Mas as coisas realmente se tornaram difíceis emocionalmente quando a família de Jules chegou. Foi muito corajoso da parte deles ir a um GP logo depois do funeral. Espero que eles tenham conseguido tirar muitas forças de todas as homenagens feitas pela comunidade da F1."

A CARREIRA DE BIANCHI EM IMAGENS

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