Vettel e Átila: rumos diferentes, sonhos e amizade iguais

Há quase uma década, dois jovens iniciavam uma jornada de olho na F-1. Hoje no topo, alemão conta que brasileiro foi seu melhor relacionamento nas pistas

Vettel e Átila, nos tempos de F-3 europeia, em 2005

Um corre de F-1, o outro de Stock Car. Um é alemão, o outro é brasileiro. Um teve a carreira toda projetada para realizar o sonho que o outro não conseguiu, pela infelicidade de ter crescido demais e não entrar no cockpit. Apesar de todas essas diferenças, Sebastian Vettel e Átila Abreu têm algumas coisas bem em comum: a amizade e o amor pelo esporte.

Os dois deram seus primeiros passos juntos, competindo na F-BMW e na F-3, e se uniram por conta do mesmo sonho. Os interesses resultaram em uma belíssima amizade, daquelas que nem a rivalidade (Vettel e Átila ficaram como campeão e vice, respectivamente, do campeonato da F-BMW em 2004) pode estragar. Amizade esta que perdura até hoje, mesmo com os rumos da vida separando os dois fisicamente.
 
Afinidade de sonhos se somou ao companheirismo fora da pista, gerando uma convivência única. Tanto que Vettel, em entrevista ao semanário Speedweek, disse que Átila foi o piloto com quem melhor se relacionou no automobilismo. A recíproca é verdadeira. "Convivemos em dois momentos distintos. Ele estava um ano na minha frente, quando fui vice-campeão atrás dele na F-BMW. Tínhamos o mesmo patrocínio, fazíamos training juntos e nós dois sempre estávamos à frente dos outros, seja na corrida a pé ou nos exercícios. Sempre tivemos uma rivalidade esportiva e nos demos muito bem."
 
 
A parceiria foi reforçada na F-3, quando dividiram a mesma garagem. Átila relembra boas histórias dessa época. Como a vez em que seu pai, João Abreu, fez o alemão de língua enrolada aprender funk carioca em português: "Ele era muito tranquilo dentro e fora das pistas. Tínhamos uma amizade bem forte, tanto que ele sabia cantar funk. Como falar alemão era difícil, meu pai o fez aprender português cantando funk carioca. Era uma diversão. Viajamos muito a lazer e sempre nos demos muito bem."
 
Histórias, Átila tem de monte e relembrou as duas mais marcantes: "Sempre fomos muito amigos, nunca brigamos e fazíamos sacanagens juntos. Como uma vez em que nos hospedamos em um hotel cinco estrelas na Itália, que teve seus dois blocos reservados para a turma da F-BMW. Fizemos guerra de papel molhado e ele arrombou a porta do quarto com uma voadora. Claro, depois tomamos aquele esporro dos chefes da BMW".
 
"Éramos moleques, com 16 anos. Tinha uns dez caras da mesma idade na F-BMW fazendo o training. E sempre fazíamos algumas competições. Uma delas acontecia quando pegávamos o trem. Quando ele parava na estação, nós saíamos correndo do primeiro vagão com destino ao último no intervalo entre as paradas. Sempre alguém perdia e todos tinham de parar na estação seguinte para esperar o atrasado."
 
Com os rumos diferentes da carreira, os contatos entre Vettel e Átila rarearam, mas nunca desapareceram. "Agora que ele foi campeão, é meio difícil de conversarmos. Sem contar que, quando deixei os monopostos, fiquei dois anos parado antes de ingressar na Stock Car. Em 2008, ele me convidou para ver a F-1 em Interlagos nos boxes dele e pude observar que ele não mudou nada. É a mesma pessoa na TV que conheci fora das câmeras e das pistas. Um cara muito alegre e divertido."
 
O estilo "boa praça" de Vettel fez Átila estranhar as declarações de Mark Webber após o GP da Turquia do ano passado, quando os dois se tocaram e desencadearam uma séria crise dentro da Red Bull. Segundo o paulista, o trabalho feito em torno da formação de Vettel faz com que seja inevitável sua preferência dentro da Red Bull, por conta do alto investimento realizado.
 
"Desde o começo sabia que ele ia para a F-1. Ele tinha contrato com a BMW e a Red Bull, ou seja, tinha seis carros à disposição. Isso sem contar que o Schumacher ajudava. Fora o talento! Criaram ele para isso. Faz sentido ele ser campeão. Naquela ocasião, a culpa maior foi do Webber. Era algo que poderia ter sido evitado, claro. Mas foi Webber que tentou causar mal-estar." 
 
 
Os dois poderiam estar na F-1, correndo juntos e ganhando corridas, não fosse Átila "espichar" na adolescência até 1m90 de altura, o que o forçou a abandonar os monopostos, uma vez que seus joelhos sofriam grandes ferimentos no aperto do cockpit. Hoje, como uma das estrelas da Stock Car mesmo com a pouca idade e diante de pilotos renomados, Átila diz não ter nenhuma mágoa por não ter seguido a carreira nos monopostos.
 
"Sinto-me, sim, realizado. Todos querem a F-1, mas eu acho a Stock Car bem mais legal que a F-3, por exemplo, que tem corridas chatíssimas. Na F-1, a disputa não me agrada. Hoje, a esportividade fica em segundo plano diante de muito negócio. Aqui na Stock tem muitas disputas, nós batemos portas, temos pilotos de nível muito maior que na F-3 e nomes que sequer foram pra monopostos e são de nível muito bom, como Cacá e Camilo, entre outros. É de fazer inveja."
 
"Competi contra a maioria dos pilotos que está no grid. Hamilton, Buemi, Sutil, Kobayashi, Perez... Andei junto de todos eles. Capacidade eu tinha, mas sabia que a F-1 era muito difícil", ressalta Átila, que destaca a falta de talentos no grid atual. "Muitos não merecem estar lá, como o D'Ambrosio. Existem outros muito melhores." 
 
Por fim, o piloto da equipe AMG, que é o único do país a correr com o patrocínio dos energéticos Monster, que apoia nomes como Jorge Lorenzo (MotoGP) e Jenson Button (F-1), entre outros, pede "desculpas" ao compatriota Felipe Massa, uma vez que já tem seu piloto predileto no grid. "Claro que fico contente quando vejo Vettel vencendo corridas e campeonatos. O Massa que me perdoe, é muito importante ver brasileiros vencendo e fomentando o esporte nacional, eu torço por ele, mas sou Vettel. É muito legal ver um amigo realizar um sonho que você também tentou. E ele merece, é justo."

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