Juventude experiente

Uma temporada após o momento mais difícil de sua carreira, o "veterano" Thiago Camilo, de 26 anos, analisa seus sete anos de Stock Car

Thiago Camilo: 26 anos, sete deles na Stock Car (Fotos: Duda Bairros)

O boné virado para trás e o refrigerante na mão (uma quebra permitida na rigorosa dieta, sob o calor escaldante do Rio de Janeiro) podem ser um indicativo da juventude de Thiago Camilo. Mas engana-se quem acha que ele ainda é um moleque.

Depois de comer o chamado “pão que o diabo amassou” no ano passado, com uma temporada repleta de problemas com a equipe Vogel, Thiago decidiu dar uma virada na carreira: rompeu o cordão umbilical que o ligava ao time do experiente Mauro Vogel e partiu para uma nova jornada com a RCM, equipe-irmã da Eurofarma RC, de Rosinei Campos.

Sob a batuta de André Bragantini e seu filho, Andrezinho, os resultados vieram logo de cara: vitória em Curitiba e, atualmente, a liderança do campeonato, a duas corridas do início do playoff decisivo. Junto com elas, veio o melhor momento da carreira, reconhecido pelo próprio piloto.

"Com certeza é o melhor momento, por ter passado o que passei em 2010. Cresci como profissional, era um momento que estava precisando passar para dar uma assentada na poeira e ver que as coisas não são fáceis e que precisamos lutar por elas. Ter começado nessa equipe nova me deu forças. Começar vencendo em Curitiba deu uma força a mais e as coisas vão engrenando, dando certo, sem fazer esforço."

A mudança de ares teve vital importância, segundo Thiago, que faz questão de agradecer o apoio e a amizade construída com Vogel, ressaltando estar impressionado com a infraestrutura e a organização da nova casa.

"Sou eternamente agradecido ao Mauro por tudo o que ele fez, por todas as vitórias que tive na Stock. O nome que tenho hoje devo a ele, que me ensinou muito também na parte técnica. Ele tem me ajudado muito neste ano. O Mauro é um cara que sabe tudo, conhece tudo da parte técnica, e nosso entrosamento era muito bom, isso que deu certo. Eu passava a informação e ele sabia o que fazer."

"Isso ajudou muito na minha maneira de trabalhar com a RCM. Ter o conhecimento do carro, o fato de ter liberdade no acerto. O André e o Andrezinho Bragantini [líderes do staff técnico] trabalham diretamente comigo, dão espaço para testar, direcionam da maneira correta no que fazer e no que não fazer. A equipe em si, que é do Meinha, me chama a atenção na organização. Eles são muito organizados na estrutura fora do carro. As pessoas que trabalham são muito competentes: tem o cara que faz só a estratégia, o do consumo, da telemetria, da pressão de pneus. Era uma coisa que não tinha antes. Pode se dizer que passou a ser um esquema mais profissional, com pessoas determinadas para cada função."

Ao relembrar momentos-chave da carreira, Thiago se abre: relaciona a primeira corrida, a primeira vitória, em uma das corridas de Interlagos do ano de 2004, a chegada de um grande patrocínio no ano seguinte e a conquista da etapa de abertura de 2011, pois aconteceram muitos aprendizados e foi neste período que ele aprendeu. Muito. E faz questão de destacar cada detalhe e cada situação, inclusive admitindo que, nesse tempo, "bateu muito a cabeça na parede".

"Até fiz uma entrevista recente que seria muito injusto destacar dois momentos. As que ficaram na memória foram a primeira vitória, em 2004, por ter sido o mais jovem vencedor da Stock Car, largando da pole e vencendo contra meus principais ídolos no grid, o Ingo [Hoffmann] e o Chico [Serra], foi bem bacana, e a vitória deste ano em Curitiba, pois o ano passado não foi fácil. O automobilismo é complicado, pois vim de um ano com vice-campeonato e duas vitórias, o que gerou uma expectativa para 2010. O esportista vive do momento: se você está em um momento ruim, você não é ninguém, e 2010 foi um ano muito ruim, de muitos altos e baixos, e não boto a culpa na equipe. Eu tive meus momentos ruins, mas dei a melhor volta por cima em 2011, com um projeto novo e vencendo."

"Minha corrida de estreia era um outro mundo. Uma coisa legal que destaco: quando comecei, em 2003, com o Camilinho [Christófaro], depois passando para o Mauro, muitas pessoas falavam 'ah, é promessa, vai dar trabalho'. Você acaba ficando com isso na cabeça. 2004 foi o meu primeiro ano competitivo. Terminei o ano bem, fui o que mais pontuou na segunda metade do ano."

"Em 2005, quando a Texaco fechou comigo, muitos falaram que eu seria o campeão. Hoje, olho e vejo que não tinha a menor condição, entre 2004 e 2006. São coisas que você tem de passar, não adianta. Se não tivesse vivido aquilo, não teria a experiência de hoje. É algo que você tem de viver e passar para aprender. Isso te ajuda a lidar com uma corrida, até tirar o pé para ganhar na frente. Só o tempo vai ensinar."

"Faz parte da experiência, ter passado por momentos e olhar pra trás e ver que muitas coisas não valeriam a pena; se voltasse atrás não faria. Existem coisas na vida que é só batendo a cabeça na parede para aprender. E fiz muito isso. Pelo meu jeito, sofri mais com isso. O ano passado entra nesse conjunto de coisas, de ter calma, saber trabalhar e manter o foco. Se você for muito competitivo e não estiver 100% focado, você perde tempo."

O tempo deixou Thiago visivelmente mais maduro e, para alguns, ele ficou mais simpático; para outros, marrento. A opinião varia, parte de pessoas da arquibancada, de dentro da Stock, ou de quem vê pela televisão e acompanha o piloto por meio das redes sociais. Um dos pilotos mais assediados pelo público, Camilo é um dos mais ativos nas redes sociais e amealhou uma legião de fãs, seja por seu talento, pela simpatia, ou pela beleza que provoca manifestações apaixonadas de muitas fãs. E o piloto de 27 anos deixa claro que eles são seu foco. O resto é o resto.

"O público em geral que me conhece não tem essa impressão. Isso é o que me preocupo, em dar o máximo de atenção para as pessoas na visitação. Vejo pelo Twitter e pelas redes sociais que as pessoas me tratam com carinho. Existem aqueles de mau com a vida que só criticam e não me agregam nada. Eu só penso na força positiva que enxergo. Na visitação, meus boxes estão sempre cheios, com as pessoas sempre me procurando para tirar fotos. Depois, sempre recebo mensagens agradecendo, falando que sou simpático e humilde. Isso que conta. Se, para os meus rivais, pode transparecer arrogância, tenho as pessoas que me conhecem, gostam de mim e sabem como eu sou. Existem aqueles que não gostam, é natural. O piloto está aqui para trabalhar e não fazer amigos. Temos que nos preocupar com o público e tentar evoluir se alguém relevante me acha de alguma maneira."

 

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Categorias Stock Car Brasil
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