Considerações sobre a entrevista de Lucas di Grassi

Esclarecendo o mal-entendido com notícia sobre declarações de di Grassi sobre Nelsinho Piquet

As recentes polêmicas envolvendo Lucas di Grassi e Nelsinho Piquet ganharam um novo capítulo ontem com as declarações do primeiro em relação ao segundo ao Motorsport.

A reportagem publicada mostrava críticas de Lucas à sua desclassificação e também ao rival pelo título da Fórmula E. É importante registrar que ele o fez questionado por nossa reportagem e não de forma gratuita.

Procurado por nossa reportagem, Nelsinho negou pedido de entrevista para rebater os comentários de Lucas. Aqui é igualmente importante fazer o registro que a entrevista de di Grassi já havia sido publicada quando solicitamos a entrevista de Nelsinho, o que jornalisticamente foi uma falha. Como editor do site, peço desculpas aos leitores e aos envolvidos pelo acontecido. Nossa equipe jamais publicou declarações sem permitir às outras partes envolvidas o mesmo espaço. Lucas foi atingido ao ver um título que fugia ao foco da entrevista que era explicar sua desclassificação em Barcelona. Nelsinho, no caso, foi vítima de erro ainda maior ao não ser dada a ele a opção de se defender e posicionar.

Em nota emitida por sua assessoria, Nelsinho diz que não vai entrar em tiroteio em respeito aos fãs, patrocinadores e à categoria. Frisa ainda que nunca acusou ninguém de roubo e acrescenta que seus comunicados nunca citaram as palavras “Lucas di Grassi”.

A íntegra da nota da Piquet Sports, assinada pelo jornalista Luís Ferrari:

Nelsinho Piquet não irá conceder entrevista para rebater reportagem publicada pelo motorsport.com e totalrace.com.br e depois retirada do ar sem que tivesse sido feito o outro lado.

Em respeito à categoria, aos patrocinadores e principalmente aos torcedores que deram ao brasiliense vitória nas três últimas enquetes do Fan Boost (e também aos outros fãs da Fórmula E que ainda não votaram nele), o piloto se recusa a entrar em rasteiro tiroteio verbal com adversários.

Em nenhum momento Nelsinho Piquet acusou seus concorrentes de roubo. Aliás, nos 17 comunicados à imprensa emitidos por sua assessoria no Brasil, em nenhum momento sequer foi citado o nome do outro brasileiro que sistematicamente tem atacado o líder do campeonato nas mídias sociais e convencionais.

Muitos internautas me mandam perguntas em mídias sociais, pelo fato de eu sempre ter acompanhado a carreira dos dois de perto, sobre onde teria surgido tamanha rivalidade.

Confesso que não sei. Desde o início das transmissões do Fox Sports sobre a Fórmula E, bato na tecla que não é bom convidar os dois para o mesmo jantar. Não era pra criar polêmica vazia e valorizar a transmissão. Sei que ambos não são próximos há tempos, mas não sei ao certo de onde surgiu a rixa. Preferi imaginar que, competidores há tantos anos, estabeleceu-se uma disputa acirrada na pista que gerou desdobramentos fora dela.

Minha trajetória em relação aos dois é parecida. Acompanhei já como setorista da Fórmula 1 suas caminhadas na F-3 à distância (entrevistas por telefones) e suas chegadas em GP2 e depois F-1.

Jamais estabeleci relação de amizade com nenhum dos dois, pois não considero que seja este o caminho mais correto para se fazer o bom jornalismo. Acredito que os dois pensem da mesma forma do ponto de vista de um piloto. Fui uma vez a casa de cada um (Di Grassi, em Mônaco, e Nelsinho, em Charlotte – sempre a trabalho). Com Lucas cheguei a ser mais próximo no contato de paddock, e certa vez montamos uma “equipe de kart” para o Desafio das Estrelas. Era na verdade uma grande brincadeira. Ele tinha o kart dele, igual a todos os anos anteriores, e corria com o Dial da Jovem Pan. E eu narrava, da mesma forma como fizera nas outras edições. Enfim, por se tratar de corrida diversão fizemos algo diferente.

Meu primeiro contato real com Nelsinho foi em 2005, quando estreou na GP2. Di Grassi tem razão em mencionar o fato de ele correr em equipe própria, mas já entrevistei tanto Nelsinho como Nelsão, e nenhum dos dois avalia isso como vantagem quando a competição afunilou na GP2. Ao contrário, acreditam ter sido um erro, tanto que Pedro Piquet, o mais jovem do clã nas pistas, conta com estratégia diferente. O jovem foi campeão pela Cesário na F-3 e neste momento a Piquet Sports tem apenas uma equipe de kart nos Estados Unidos.

Em 2005, a Piquet Sports teve muitos problemas. Só melhorou do meio para o fim. E em 2006, quando Nelsinho foi vice, a equipe, apesar de estruturada, era inferior à ART de Lewis Hamilton.

Perdemos o contato do dia-a-dia das pistas em 2009, mas à distância noto o amadurecimento dele através de entrevistas e conduta na pista. Já disse isso ao vivo no Fox Sports, pois avalio que o período dos Estados Unidos fez com que aprendesse muito a como se comportar em relação à imprensa, patrocinadores e ao evento em si. Prova disso foi o próprio fato de não responder a entrevista publicada ontem, sinal claro de amadurecimento.

Di Grassi chegou à GP2 em 2006, na fraca Durango. Ficou mais três anos (07-08-09), sendo vice-campeão em 2007. Apesar de receber críticas à época por ter perdido campeonato para Hulkenberg em seu quarto ano de experiência, além de ter vencido poucas provas (especialmente em 07), avalio que Lucas fez muito bom trabalho (em 2008 com menos provas que rivais diretos, Giorgio Pantano e Bruno Senna, brigou pelo título). O brasileiro sempre se incomodou ao fato de ter recebido críticas pela falta de vitórias em 2007, até conseguir a sua primeira. Lembra o que se passou com Felipe Nasr em seu período na categoria.

Também perdi o contato do dia-a-dia após 2010. Temi que ele ficasse naquele grupo de bons pilotos que de repente ficam sem boas oportunidades. Tudo mudou com sua participação no WEC e fechamento de contrato com a Audi, algo que me deixou bastante contente.

O curioso é que apesar dos dois não se darem bem, nunca um agrediu o outro em entrevistas, nem nos bastidores pra mim. Foi sempre algo velado.

Não imaginava que o clima subiria tanto na Fórmula E. No programa pré-temporada que fizemos no Fox Sports eu até apontei di Grassi como favorito. Sua experiência como piloto responsável pelos testes dos carros da categoria aliada a sua reconhecida técnica lhe dariam vantagens, pensei.

Nelsinho, por outro lado, caiu de paraquedas no meio da pré-temporada num time chamado China Racing e que precisa de um piloto rotativo no outro cockpit. Achei que um brilharia e o outro seria coadjuvante, como Bruno Senna vem sendo na igualmente obscura Mahindra. Também palpitei no programa que realizamos em setembro.

Já Buemi, o outro candidato ao título, foi a aposta de Thiago Alves, meu companheiro de Fox, pelos ótimos tempos conquistados durante a pré-temporada. Se avaliarmos não apenas pelos pontos, mas pela própria performance, a E-Dams de Buemi é a melhor equipe até aqui.

O tweet em que Lucas dizia no último sábado, após sua desclassificação, foi surpreendente pra mim. Mesmo de cabeça quente, di Grassi sempre manteve sua ponderação. Nunca o vi nervoso assim. Dizer que chutaria os traseiros de Nelsinho e Buemi NA PISTA foge aos padrões de suas atitudes normais, o que demonstra a clássica tensão nesta reta final de campeonato. Imagino a pressão em que esteja envolvido por ver seu grande rival numa disputa em que parecia improvável que estivesse. Além disso, os bastidores devem estar fervendo entre as equipes.

O que lamento nessa história toda é que, faltando três provas, qualquer pessoa que goste de corrida me diz: “Certeza que os dois vão brigar até o fim e deixarão o título de mão beijada ao Buemi”. Parece roteiro definido. Seria uma pena caso isso de fato acontecesse, para eles e para o Brasil. Quem acompanha quieto e interessado esse cenário é o próprio Buemi. O que espero de verdade é que vença o melhor. Que fique registrada a retratação e que o vencedor se defina na pista.

 

Felipe Motta

Editor-chefe do Motorsport.com Brasil

 

 

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Categorias Fórmula E
Pilotos Nelson Piquet Jr. , Lucas di Grassi
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