25 anos: Barros relembra 1ª vitória brasileira na MotoGP

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25 anos: Barros relembra 1ª vitória brasileira na MotoGP
Por: Gabriel Lima
26 de set de 2018 11:46

Então piloto da Suzuki, Alex teve 1993 de altos e baixos que culminou em vitória histórica na última etapa da temporada; recorde

Nesta quarta-feira, dia 26 de setembro de 2018, o motociclismo brasileiro celebra o 25º aniversário de sua primeira vitória na categoria principal do Mundial de Motovelocidade. Na pista de Jarama (Espanha), o então jovem Alexandre Barros – com apenas 22 anos de idade – levou o país ao lugar mais alto do pódio pela primeira vez nas clássicas 500cc e em um de seus períodos mais nostálgicos.

Barros andou naquela temporada contra nomes como Kevin Schwantz (seu companheiro de equipe e campeão) Wayne Rainey (que deu adeus ao motociclismo naquele ano devido a um acidente), Luca Cadalora, Michael Doohan, John Kocinski, Álex Crivillé e Daryl Beattie. Ou seja, pilotos que fazem brilhar os olhos de qualquer admirador do motociclismo.

Aqui abaixo, Barros conta com exclusividade como foi aquela temporada, na qual jogou fora duas chances claras de vitória (Espanha e Holanda) devido ao nervosismo e a falta de experiência, e conta como isso o ajudou a conseguir o triunfo no final da temporada em Jarama. Pista que, por sinal, também marcou a primeira vitória de um brasileiro no mundial, na extinta categoria 350cc, com Adu Celso em 1973.

Confira o papo:

Motorsport: Imagino que a temporada de 1993 tenha sido um grande marco na sua vida...

Alex Barros: Claro. Foi a primeira vez que andei em uma equipe com moto que ganhava. Um time de ponta. Tinha a expectativa de andar bem, e logo de cara fizemos ótimos resultados. Infelizmente a vitória acabou escapando no GP em Jerez e no GP da Holanda. Cometi alguns erros ali. Aí no final do ano eu tive mais calma, consegui um segundo lugar nos EUA e na última corrida, em Jarama, estive em uma briga com o Shinichi Itoh, o John Kocinski e o Luca Cadalora. O Cadalora caiu e o Itoh e o Kocinski acabaram se enroscando e caíram também. Estava logo atrás, mantive a calma e acabei lucrando com aquilo. Tinha 22 anos, e aquilo foi realmente muito bom. Perdi a vitória de maneira clara duras vezes, e algumas outras oportunidades por erros táticos de fim de corrida também.

Alex Barros, Suzuki

Alex Barros, Suzuki

Photo by: Gold and Goose / LAT Images

M: Como foi a negociação de trocar a Cagiva pela Suzuki? Você trocou de lugar com o Doug Chandler...

AB: Não foi bem uma troca. Eles contrataram o Chandler e a Suzuki me chamou. Não foi nada combinado, vamos dizer. Eu fiz três anos na Cagiva de 500cc, e aí depois da última corrida de 1992 na África do Sul, em Kyalami, eu encontrei o Garry Taylor (ex-chefe de equipe da Suzuki) na recepção do hotel. A gente acabou conversando. Foi dali que surgiu a possibilidade de eu ir para a Suzuki. Depois eu fui para a Inglaterra, conversei mais com eles e eles formalizaram a proposta. Eu assinei o contrato no Japão, quando fui fazer a corrida de Sugo do campeonato japonês já pela Suzuki – era a última corrida do ano. Ganhei e assinei o contrato. Inclusive fiz essa corrida em 1993 de novo e ganhei também.

M: Você andou naqueles anos anteriores na Cagiva ao lado do Eddie Lawson, que se tornou um amigo seu. Indo para a Suzuki, como foi sua relação com o Kevin Schwantz?

AB: Era uma boa relação também. Não era igual com o Eddie, porque ele estava parando. Ele foi um maestro para mim. Me ensinou muita coisa. Mas com o Kevin era um pouco diferente, porque ele não estava parando. Éramos mais adversários, mas matinha muito respeito. Nunca tive problemas com ele, ele sempre me tratou bem, mas havia uma concorrência maior. O Lawson assinou um contrato de dois anos em 1991 e ia parar no fim. O Kevin não tinha a intenção, embora tenha parado pouco depois, no início de 1995, quando saí da Suzuki.

M: Sua primeira grande corrida em 1993 foi em Jerez, no início do ano. Você largou em segundo, saiu mal, chegou a cair para nono, mas tinha o melhor ritmo de todos disparado. Como foi aquele GP?

AB: Nessa aí eu vim lá de trás em um baita ritmo. Quando cheguei, o Kevin até deu sinal para eu passar por ele para ele para tentar me usar de referência para imitar o meu ritmo. Ele sabia que eu vinha mais rápido. Eu passei o Rainey e ele veio junto. Ele queria a minha ajuda para deixar o Rainey para trás, era importante para o campeonato. Depois ele acabou errando tentando chegar em mim e saiu da pista na penúltima curva.

M: E logo depois disso você caiu, a duas voltas do fim. O que houve? Ficou nervoso?

AB: Na verdade, se você for olhar, na última volta antes daquilo o Kevin tentou me passar ali. Ele colocou a roda por dentro e eu consegui segurar. Aí ele saiu da pista e eu segui. Só que como foi na penúltima curva que ele errou, o time não teve tempo de me informar via placa que eu não estava mais sendo pressionado. Me deram ‘+ 0s’ de diferença.

M: Então você não sabia.

AB: Nem eu e nem o cara que me dava a placa. Aí eu sabia que tinha que arriscar naquela curva, porque achava que ele ia tentar passar. Só que aí eu errei, perdi a frente e caí. Aquele dia foi difícil. Falei um monte de palavrão debaixo do capacete (risos).

M: Imagino que tenha sido uma de suas maiores dores da vida esportiva.

AB: Dói, cara. E como dói. Saber que a sua primeira vitória na categoria principal do mundial estava segura e você errou. É difícil.

Alex Barros, Suzuki

Alex Barros, Suzuki

Photo by: Gold and Goose / LAT Images

M: Foram os nervos? Logo depois disso você perdeu um terceiro lugar na última volta para o Rainey na Áustria também, mas depois de ser atrapalhado e reclamar com um retardatário, não?

AB: É. Essa foi uma puta de uma burrice também. Fui muito mal. Ali eu realmente comi bola. Nem gosto de lembrar (risos).

M: Outra possível vitória que você perdeu foi na Holanda. Vinha liderando e lutando com o Schwantz e o Michael Doohan, só que sofreu outro acidente...

AB: É, ali a moto escapou de frente. Tinha passado os dois, feito a volta mais rápida. Ali eu estava focado em atacar. No que eu passei eles, entrei rápido demais na curva e acabei caindo. E naquele dia machucou. Quer dizer, não quebrei nada, mas fiquei todo dolorido. Parecia que tinha tomado uma surra. Foi uma frustração grande também, porque eu tinha chance de vencer, como em Jerez. Ali foi um erro feio. Eu tinha o pódio garantido e deixei escapar. Burrice. Meu equipamento era o melhor de nós três.

M: Naquela época as 500cc dois tempos eram bem mais complicadas de guiar, não? O piloto tinha que ter alguma experiência para andar bem na maior parte dos casos...

AB: A 1000cc quatro tempos não tem nada a ver com o que era a 500cc dois tempos, principalmente por conta da eletrônica. Hoje um bom piloto de Moto2 consegue chegar e se posicionar bem na MotoGP. Naquela época, dominar a explosão do motor 500cc das dois tempos era muito mais complicado. Então, todos os pilotos precisavam de experiência. Mas isso não impediu alguns poucos pilotos de irem bem na primeira temporada depois de andar de 250cc. Mas isso era exceção.

M: Vendo hoje, qual a avaliação que você faz daquele momento? O que faltou em você?

AB: Era o momento. Eu fazia aquilo que eu achava que era certo. Não tinha ninguém me ajudando do lado. Eu cometi erros. Normal. Erros de juventude. Aprendi com isso na marra. A gente, com a bagagem que tem hoje, quando olha para trás, sempre muda algumas coisinhas. São aprendizados da vida. Imagino que você tenha vivido isso também. Coisas que você foi ansioso, acelerou mais do que deveria e acabou batendo com a cara na parede, né...

Alex Barros, Suzuki

Alex Barros, Suzuki

Photo by: Gold and Goose / LAT Images

M: É, eu tenho várias histórias assim... (risos)

AB: Sim, mas é a vida. Todos passam por isso. Eu cometi meus erros, e foi isso que me levou a outros lugares.

M: Você falou do acidente na Holanda, mas teve aquele acidente triplo com o Michael Doohan e o Kevin Schwantz também na Inglaterra. Um strike...

AB: Sim. Uma pena, na primeira volta. Aquela corrida era para nós dois (Suzukis) irmos para a ponta e terminarmos lá na frente. Tinha a chance da vitória. Acontece.

M: Mas também naquela temporada teve o acidente que deixou o Wayne Rainey paraplégico, em Misano. O que lembra daquele dia? Qual o efeito disso no paddock na época?

AB: É. Se você olhar, o acidente dele não foi grave. Foi normal. A moto escorregou de frente e tal. Foi um acidente comum. Mas aí quando terminou a corrida e começaram a chegar as notícias, todo mundo ficou preocupado. Ele chegou a correr risco de morrer, tinha perfurado os pulmões. Eles primeiro tiveram que estabilizá-lo. Aí soubemos que ele tinha machucado a medula e que a chance de ele ficar paralítico era grande. Aí no dia seguinte eles confirmaram essa notícia. E é interessante: se você for olhar, o Kevin Schwantz e o Wayne Rainey foram adversários desde a Superbike americana. Eles correram a carreira inteira juntos. A partir do momento que o Rainey não estava mais ali, o desempenho do Kevin muda na hora. Repare os resultados que ele conquistou depois daquela corrida em Misano. Ele caiu bastante. A temporada de 1994 dele foi bem mais difícil, isso mexeu com a cabeça dele. Ele se machucou bastante naquela temporada, e em 1995 depois de três corridas ele parou.

M: Sim. Como se tivesse perdido uma motivação...

AB: Ele perdeu a referência dele. Eles se odiavam – mas no bom sentido. Eram grandes adversários dentro da pista. Isso interferiu bastante nele.

M: É impressionante isso. Mesmo sendo rivais eles tinham um relacionamento muito cordial, né?

AB: Muito. Eles tinham muito respeito um pelo outro. Eles queriam se matar dentro da pista. Quando os dois estavam juntos, quantos pegas lindos a gente não viu e vê até hoje no YouTube? Muita coisa. Eles se batendo, carenagem com carenagem, coisa encardida. Era lindo. Eles não eram inimigos. Eles se respeitavam, mesmo um querendo comer o outro na pista. A trajetória dos dois é de muito respeito. E eles só chegaram neste nível porque um empurrava o outro.

Wayne Rainey, Yamaha, Kevin Schwantz, Suzuki

Wayne Rainey, Yamaha, Kevin Schwantz, Suzuki

Photo by: Gold and Goose / LAT Images

M: E logo depois de Misano veio sua primeira prova sem problemas, que foi em Laguna Seca. Você inclusive chegou a liderar, mas seu rendimento caiu no fim. Como foi?

AB: Pois é. Lá faltou pneu. Meu pneu desgastou muito da metade da corrida para frente e eu não consegui pegar o John (Kocinski) e o (Michael) Doohan. Depois o Doohan acabou caindo lá no Saca-roilha. Tive que desviar dele para não acertá-lo, inclusive. Depois o Kocinski escapou e eu não consegui acompanhar. A moto não tracionava bem. Tive que ficar em segundo mesmo.

M: E aí, enfim, veio Jarama. Como foi aquele final de semana e aquela prova?

AB: Eu vi que tinha chance. Assim como Jerez, como na Holanda, como na Inglaterra, como na Áustria e etc. Só que você tem que saber administrar a corrida também, as coisas que acontecem. Você briga com adversários, temos as disputas e tal. Não sei, mas acho que consegui manter a cabeça mais fria lá. Vi que o Itoh e o Kocinski abriram um pouco no começo, mas eles acabaram caindo. Eles estavam exagerando na briga. O Cadalora também estava ali por perto, mas caiu antes. Não me desesperei. Poderia até ter me envolvido junto.

M: Depois de um ano tão complicado, como foi cruzar a linha de chegada como vencedor? Imagino que você tenha tirado um peso das costas...

AB: Eu não acreditava. Falei para mim mesmo: ‘Alex, não faz besteira agora, não faz besteira agora’ (risos). Eu já tinha feito várias no ano, né? Ali tinha que dar certo. E aconteceu. Era um grande sonho se realizando. Foram muitos anos de dedicação. De 1978 até 1993.

M: E ainda por cima vindo de um país sem tradição nas motos até ali, chegar na maior categoria e em uma das melhores equipes...

AB: Sim. No momento e naquela época. Foi realmente diferente.

M: Como foi a chegada ao Brasil? O que lembra daquele momento após a vitória?

AB: Tive uma grande recepção aqui também. Foi muito boa. Se não me engano, muita gente me aguardou. Veio bastante gente no aeroporto me receber, imprensa e tudo mais. Fizeram uma festa para mim, uma homenagem. Foi muito bonito. Eu fiquei muito feliz.

M: Você diria que este é o momento que mais te deu orgulho na carreira?

AB: É a primeira vitória, né. Tive outras vitórias também importantes na carreira. Mas a primeira é sempre marcante. Essa é a que quebra o tabu. Mostra para você que você pode. Isso fica marcado. De qualquer forma tive outras, mas essa é especial. É o sonho, né? Para qualquer atleta isso é bem marcante.

Race winner Alex Barros, Suzuki

Race winner Alex Barros, Suzuki

Photo by: Gold and Goose / LAT Images

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Categoria MotoGP
Autor Gabriel Lima
Tipo de matéria Entrevista