Lorenzo: "é normal que a Yamaha escolha Rossi para vencer"

Em entrevista exclusiva ao Motorsport.com, o tricampeão Jorge Lorenzo falou sobre a temporada 2015 e seu futuro no esporte

Na quarta-feira da semana passada, logo após o último dia de testes da MotoGP em Sepang, na Malásia, enquanto que todos os membros dos times tinham pressa em arrumar suas coisas e partir para o aeroporto, as expressões nos rostos do pessoal da Yamaha era de extrema satisfação.

Depois de conseguir o título em uma das maiores disputas da história da categoria, Jorge Lorenzo estava mais sereno e confiante do que nunca. E desta forma, ele concedeu entrevista ao editor de MotoGP do Motorsport.com, Oriol Puigdemont.

Como você chegou à Malásia?

Embora muitas pessoas vão pensar que estou brincando, após estes dias, eu não chego nas melhores condições. O título atrasou meu treinamento físico. Além disso, eu estava resfriado e tomando antibióticos. Mas tudo correu muito bem e temos uma vantagem maior do que nunca sobre o restante do grid, cerca de um segundo em todas as condições. Eu nunca tinha conseguido isso. 

Essa confiança que você irradia é resultado do título do ano passado?

Sim, obviamente você fica com um grande gosto na boca, mas se eu tivesse perdido o campeonato, teria chegado aqui e estaria rápido do mesmo jeito.

O que o terceiro título significou para você?

Teria sido muito frustrante perder. Fui o mais rápido com uma certa margem na maioria das corridas, além de sermos a equipe que trabalhou melhor. Perder devido a má sorte que tivemos em algum GP teria sido muito ruim.

O que você aprendeu com o que aconteceu?

No ano passado nos encontramos com o pior pneu que poderíamos ter para o meu estilo de pilotagem. É por isso que começou tão ruim. Foi o que aconteceu em 2014, especialmente nas primeiras corridas. Em seguida, eles o mudaram, mas nunca me senti tão confortável como em 2013, 2012 ou 2010. Isso me fez extrair o máximo e aprender a sofrer em condições desfavoráveis. Da Alemanha em 2014 e Valencia em 2015 eu sou o piloto com o maior número de pontos marcados. Sofrer tanto me fez mais forte.

Seus rivais dizem que quando você está em boa fase, você é "incapturável". Como as incertezas te afetam?

Há pessoas que dizem que não sou mentalmente forte, mas quando você analisa minha carreira na MotoGP, deixando o primeiro ano de lado (2008) e 2014, quando terminei em terceiro lugar, eu ganhei ou fui segundo.

Fazer o que eu faço é muito difícil. Se você não estiver mentalmente forte é impossível de fazer. E é por isso que eu não entendo as críticas. Eu estou fisicamente melhor e mais convencido de que posso elevar o nível. Mas quando eu não estou no meu melhor eu ainda estou lá em cima, lutando pelo título.

Você se vê na Yamaha por muitos anos?

Mesmo durante os tempos mais difíceis eu já disse que meu sonho era me aposentar aqui. E não só isso, mas depois do título, acho que possível se tornar o piloto mais bem sucedido da equipe. Seria um sonho. Mas, assim como eu faço desta equipe a minha principal prioridade, é importante eles valorizarem o que tenho dado de retorno. Após o último título de Valentino Rossi em 2009, o único que ganhou com a Yamaha fui eu.

Você sentiu que não foi valorizado o suficiente no ano passado?

Nunca me preocupei com o fato de Rossi ter mais mídia e ter mais fotógrafos ao seu redor. E eu mesmo vejo como normal que a Yamaha prefira que ele ganhe por causa de sua popularidade, porque dessa forma ele vende mais motos.

Para mim, a única coisa que importa é ter o mesmo equipamento, porque confio nas minhas capacidades e sei que com essas regras eu vou correr bem. Nesse sentido, esta empresa é muito séria e sempre me apoiou.

Como a equipe se sente quando você ganha?

É verdade que algumas partes da equipe ficam com um sentimento estranho, um pouco diferente do que se apenas um piloto da Yamaha tivesse lutando pelo título. Essa controvérsia faz com que algumas pessoas ficassem um pouco frias, mas acho que foi uma consequência do que aconteceu em Sepang.

E como você vê Rossi agora?

Parecia impossível que Valentino fosse capaz de manter esse nível nessa idade e ele está conseguindo. Algum tempo atrás eu não me imaginaria competindo por muitos anos no topo da MotoGP e agora eu acho que se eu sou competitivo e eu aprecio o esporte cada vez mais, por que não estender a minha carreira?

Durante suas conversas com a Yamaha, passou pela sua cabeça vetar Rossi?

Nunca vetei Valentino ou qualquer outro companheiro de equipe, nem mesmo quando tive essa chance. Estou ciente de que Rossi é benéfico para a marca, dentro e fora da pista. Temos uma estrutura muito completa, que me garantiu o tricampeonato e que sem um companheiro competitivo seria impossível.

Há algumas temporadas, quando Marquez dominava, as pessoas diziam que a Yamaha estava muito longe da Honda. Agora, parece que a Honda está um desastre.

O seu valor é fornecido pelas estatísticas, especialmente se você compará-las. No fim, desde o dia em que cheguei na MotoGP eu provei que era possível vencer uma estrela como Rossi.

E quando tivemos a mesma moto, meus números foram melhores do que o dele. E isso tendo em mente que ele é considerado o melhor piloto da história. Seu nível, a sua qualidade e seu valor é determinado por seus resultados.

Foi um alívio ver que a dupla Marquez/Honda não era invencível?

Em 2014 parecia que Marc dominaria durante cinco ou seis anos seguidos. Então você percebe que nada dura para sempre e que Fangio estava certo quando disse que você tem que lutar para ser o melhor, mas nunca acreditar que você é. Você não pode relaxar. Você só pode tirar proveito do momento se você é forte, porque mais cedo ou mais tarde, os outros vão te pegar.

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Categorias MotoGP
Pilotos Jorge Lorenzo
Equipes Yamaha Factory Racing
Tipo de artigo Entrevista