OPINIÃO: Dani Pedrosa - O eterno multicampeão do futuro

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OPINIÃO: Dani Pedrosa - O eterno multicampeão do futuro
Por: Gabriel Lima
13 de jul de 2018 12:38

O que deu errado para que Pedrosa encerrasse sua carreira sem um mundial? Todos os detalhes possíveis...

O espanhol Dani Pedrosa anunciou sua aposentadoria da MotoGP nesta quinta-feira antes do GP da Alemanha, terminando com meses de especulação sobre seu futuro. Pretendido pela nova equipe satélite da Yamaha apoiada por organizações malaias, ele resolveu parar de competir após reconhecer que não conseguiria correr e encarar mais com a mesma intensidade o ato de pilotar.

Dani é um dos pilotos mais talentosos que já passaram pelo Mundial de Motovelocidade. Os números dizem isso. O espanhol está no top-10 das estatísticas de vitórias, poles, voltas mais rápidas e pódios da MotoGP. Só não está naquela que mais o esperavam quando o espanhol ingressou na MotoGP em 2006: a de títulos.

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Mas o que deu errado para que Dani Pedrosa não alcançasse o sucesso pleno? Apenas detalhes, mas em momentos inoportunos. Vamos tentar disseca-los em algumas perguntas:

Por que nos desiludimos com Dani Pedrosa?

Campeão das 125cc em 2003, Dani Pedrosa surpreendeu o mundo ao vencer logo em sua estreia nas 250cc, no GP da África do Sul de 2004. Ali se via que o pequeno espanhol, de apenas 1,58m de altura, tinha algo grande dentro de si. Assegurando o bicampeonato na categoria intermediária em 2005, ele subiu para a MotoGP no ano seguinte, sendo segundo já na estreia, em Jerez de la Frontera.

Pedrosa venceu seu primeiro GP na em sua quarta prova, na China. Ele disputou o título de 2006 até a penúltima prova, em Portugal, quando – no mais puro ‘brain fade’ – derrubou o companheiro de equipe e futuro campeão Nicky Hayden, o fazendo quase perder a coroa daquela temporada.

O erro foi o primeiro de uma série que, em última análise, definiu sua carreira. Sem citar as contusões (falaremos delas depois), Pedrosa passou por alguns momentos em que não foi aquele piloto genial que se esperava.

Ora ofuscado por Jorge Lorenzo, ora por Casey Stoner e ora por Valentino Rossi, Dani sempre teve dificuldade para encaixar uma temporada consistente. Pedrosa era irregular a ponto de dominar um GP e não ser páreo para seus outros três rivais no seguinte. E diga-se: isso em geral não é evidenciado pelos resultados das corridas, já que à época os chamados “quatro aliens” estavam muito à frente do resto. Disputas mano a mano eram uma espécie de ponto fraco também, como se evidenciou principal em 2009 e 2010.

As melhores oportunidades de Pedrosa foram em 2012 e 2013. Derrotado por Stoner na pista com a mesma moto em 2011, o espanhol aparentava ter se acostumado com a pecha de segundão quando o inesperado aconteceu: Stoner caiu na classificação para o GP de Indianápolis e destruiu seu tornozelo.

De repente a atenção do time se voltou para Dani (como já ocorrera de 2007 a 2010), e ele mostrou a todos (e a si mesmo) que podia ser uma força na luta do título. O problema é que ele tinha uma missão ingrata: vencer tudo até o fim do ano enquanto Lorenzo podia se contentar apenas em ‘marca-lo’. Um azar em Misano e uma queda boba na segunda volta em Phillip Island lhe tiraram o título.

Mas tudo bem. Pedrosa terminou 2012 em alta, carimbando a faixa de bicampeão de Jorge Lorenzo com uma vitória a mais que o 99 (sete contra seis, mas apenas uma delas no primeiro semestre, antes da contusão de Stoner. Ah, se tivesse começado melhor…). Com a aposentadoria do australiano, Dani tinha tudo para aproveitar o momento para seguir na mesma toada em 2013 contra o estreante Marc Márquez, que obviamente cometeria alguns erros em seu ano de estreia.

Tudo ia bem até o GP da Alemanha. Líder do mundial, ele viu Lorenzo indo para casa na sexta-feira após cair e ferir uma clavícula operada duas semanas antes, em Assen. Pois bem, na primeira sessão do dia seguinte, na primeira volta do TL3, o espanhol tomou um highside de sua Honda com pneus frios e quebrou a clavícula, sendo o obrigado a perder a corrida.

Márquez aproveitou o vacilo: ganhou e abriu uma série de quatro vitórias seguidas naquele ano, arrancando para o título. O momento de Pedrosa foi enterrado, e o 26 jamais foi páreo para o 93 novamente nos anos seguintes. Até hoje não é.

Mas por que ter pena de Dani Pedrosa?

Começando do fim, ter como companheiro de equipe um piloto como Marc Márquez é provavelmente a tarefa mais dura que se poderia ter tido no mundial nos últimos anos. Na toada atual, o 93 tem tudo para formar ao lado de Giacomo Agostini e Valentino Rossi a tríade mais forte estatisticamente da história do motociclismo. Para sua pouca idade, seus números são impressionantes. E ter como referência direta um piloto fenomenal assim sendo ‘apenas’ muito bom, como Pedrosa é, não é fácil.

Mas bem antes disso Pedrosa já tinha tido seus azares. Os maiores foram envolvendo seu corpo. Mesmo sofrendo poucos acidentes, Dani sempre viu seus tombos serem acompanhados de severas consequências físicas. Veja:

 

O espanhol foi um guerreiro. Sobreviver a tudo isso e continuar andando no nível dos melhores pilotos do mundo – mesmo tendo menos estatura e, consequentemente, força física para guiar motos 1000cc de 157 kg – é de se admirar e muito. Porém, algumas de suas contusões vieram nos piores momentos possíveis.

Há exatos dez anos, enquanto liderava o chuvoso GP da Alemanha, Pedrosa caminhava para uma vitória avassaladora. Ele nunca havia vencido sequer uma corrida no molhado e já tinha sete segundos para Casey Stoner em cinco voltas. Nos pontos em todas as provas até ali naquele ano, o resultado daquela corrida podia ser uma grande cartada no mundial. Mas foi um dos maiores desastres de sua carreira: ele caiu na curva 1 na volta 6, quebrou o pulso, dois dedos da mão e ainda um tornozelo. Tchau, 2008.

Em 2009, antes mesmo da temporada, suas chances sofreram um sério abalo após um grande acidente em um teste, onde fraturou o braço e o tornozelo. Com mais duas contusões durante o ano e apenas duas vitórias, o jeito era esperar 2010. E, no fim do ano, quando era o único que poderia impedir o título de Jorge Lorenzo, o acelerador de sua Honda travou ainda nos treinos livres em Motegi, o que fez com que o espanhol destruísse sua clavícula em mais um acidente.

Em 2011, no infame GP da França, Pedrosa foi derrubado por Marco Simoncelli, quebrou a mesma clavícula e perdeu nada menos que quatro corridas, fechando assim seu quarto ano seguido prejudicado por uma contusão.

Em sua melhor chance de ser campeão, em 2012, o azar voltou. Mas não foi em forma de acidente, e sim como um cobertor térmico que teimou em não sair de sua roda dianteira antes da volta de apresentação para o GP de San Marino. Pole, Pedrosa teve de largar de último após o problema e já era décimo na primeira volta, quando Hector Barberá inexplicavelmente acertou sua moto na curva 8. Com sua queda na Austrália, Dani terminou o ano a 18 pontos de Lorenzo.

A clavícula quebrada em 2013 e diversos problemas de arm-pump em 2014 e 2015 fizeram Pedrosa jamais conseguir disputar outro mundial como em 2012, e assim ser cada vez mais ofuscado por Márquez.

Mas por que admirar Dani Pedrosa?

Mesmo com tudo isso, Pedrosa venceu em todos os seus anos na MotoGP até 2017, totalizando 12 ao todo. Ele divide com Giacomo Agostini a liderança histórica nesta estatística, e, quando juntamos as três categorias do mundial, a lidera isolado com 16 anos seguidos vencendo. Não é qualquer um que consegue isso.

Ainda que com todas as contusões citadas, em cada uma delas o espanhol se recuperou, retornou e seguiu vencendo, demonstrando sua fibra e seu desejo de conquistar o título mundial da classe principal.

Outra característica que faz os feitos de Dani serem ainda mais admiráveis são sua baixa estatura e sua força. É claro, com menos peso há uma vantagem na aceleração, no entanto ser competitivo com 1,58m em uma moto de 157 kg e de mais de 260 cv potência não é fácil fisicamente. O talento de Pedrosa sempre foi enorme.

E atualmente seu peso joga ainda mais contra sua performance, com os pneus Michelin demandando ainda mais do piloto para serem aquecidos. Sendo leve, Pedrosa sofre bastante para gerar calor na borracha, sobretudo com chuva e sob a temperaturas frias.

Falando em chuva, ela sempre foi sua grande rival nos primeiros anos de carreira. Era batata: GP no molhado era igual Pedrosa na rabeira. Isso mudou aos poucos com o passar dos anos, até chegar Sepang em 2012, quando Dani duelou e derrotou no molhado Jorge Lorenzo – sua primeira vitória na chuva na história. Depois ele ainda venceria em Valência no mesmo ano, na França em 2013 e no Japão em 2015, provando que de fato matou e enterrou este fantasma. E diga-se: isso é pouco usual no esporte a motor. Pelo menos 90% dos pilotos ruins de chuva continuam assim até o fim de suas carreiras.

Talento… sem estrela

O que concluir depois de tudo isso? Pedrosa tinha o material bruto e o talento para ser campeão de MotoGP. Mas faltou sorte, faltou o equipamento certo, o momento certo… e a estrela. Sim, a estrela.

Pedrosa viu três de seus quatro companheiros de equipe sendo campeões na Honda de 2006 até hoje, passando pelos geniais Stoner e Márquez até chegar no sortudo Hayden.

O norte-americano foi campeão em 2006 vencendo as mesmas duas provas que Pedrosa venceu naquele ano… e jamais ganhou de novo. Com apenas três vitórias na carreira (duas delas em Laguna Seca), Hayden entrou para a história como campeão de menor expressão, enquanto Pedrosa ficou marcado como ser o ‘não-campeão’ mais vitorioso da MotoGP.

Ser campeão é uma coisa que é para tão poucos que só ser bom não é o bastante. É preciso estar preparado e no lugar certo, como Dani Pedrosa é obrigado a entender agora, após sua busca por um título na MotoGP ter se cessado sem ser saciada.

O esporte é bom. Mas também sabe ser cruel.

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Autor Gabriel Lima