"Temi pelo pior" diz narrador de acidente de Pedro Piquet

Narrador da prova, Luc Monteiro conta com exclusividade os bastidores do grave acidente de Pedro Piquet na Porsche GT3 Cup, em Goiânia

Foi difícil manter a compostura ao microfone quando aquele carro decolou e assumiu uma sequência quase interminável de capotagens. Era a primeira volta da corrida, a segunda corrida do Porsche GT3 Cup na sexta etapa em Goiânia, e era Pedro Piquet que eu citava na narração da corrida para a Rede Bandeirantes, em transmissão repicada ao vivo pelo portal Terra, quando o carro número 6 do garoto de 17 anos percorreu alguns palmos de pista apoiado só nas rodas esquerdas para, em seguida, sair rodopiando pelos ares. Temi pelo pior.

Pedro Estácio Leão Piquet Souto Mayor protagonizou neste 20 de setembro o acidente mais impressionante dos dez anos de história do campeonato. Antecipei à audiência a interrupção da corrida antes mesmo da bandeira vermelha ser apresentada aos pilotos. A operação de resgate foi meticulosa e, sem eufemismos, levou tempo. Uma eternidade para todos nós que acompanhávamos tudo aquilo agoniados por um monitor de TV, uma tela de computador ou um display de telefone celular. Dino Altmann e sua equipe médica sabiam o que faziam, claro.

Só soubemos um pouco sobre os procedimentos do atendimento depois que o doutor Dino voltou do HUGO, o Hospital de Urgências de Goiânia, para onde o piloto foi levado tão logo o removeram do habitáculo – que, frise-se, permaneceu intacto apesar da violência da série de capotagens. À constatação de que Pedro estava são e consciente, queixando-se da dor aguda no braço esquerdo, os médicos empreenderam os primeiros exames ainda com o piloto dentro do carro. A suspeita de fratura no braço que tanto doía atormentava o time do doutor Dino.

A opção dos médicos foi de imobilizar o braço do piloto sem tirarem-lhe o macacão. Tomada a providência voltada ao braço, imobilizaram-no numa maca, procedimento do mais absoluto praxe, e o puseram na ambulância. Internação feita, o macacão foi enfim tirado e todos os exames cabíveis foram feitos, tomografias e radiografias. Fraturas estavam descartadas de uma vez por todas. Alta, só hoje – a casa decretou a Pedro uma noite de estadia hospitalar a título de observação. Até o início da noite Piquet pai não havia arredado pé do lado do filho.

Passaram-se exatos 23 segundos entre o diretor de provas Sérgio Berti autorizar a largada e os carros terem seu primeiro toque lateral. Ricardo Baptista havia largado em sétimo, uma posição à frente de Piquet – foram segundo colocado e vencedor da corrida de sábado, que abriu a etapa, e a partir da inversão absoluta das oito primeiras posições ficaram com a quarta fila do grid. Já estavam em sexto e sétimo quando Piquet tangenciou para a terceira curva, ciente de que tinha a linha externa em um momento de posições ainda não acomodadas na pista.

Esse primeiro toque fez o carro de Piquet desgarrar da linha de traçado pela qual havia optado em sua pretensa conduta de recuperação para a primeira volta. Um segundo depois, e não mais que isso, nota-se claramente o carro 27 de Baptista em brusca mudança de trajetória, apontando para fora e acertando o carro 6 do caçula do grid. Esse segundo toque ocorreu no exato momento em que, por ter desgarrado de seu traçado, Piquet tinha o carro um tanto desarmado na pista. Não tinha as rodas na grama, como disseram ou escreveram aqui e ali.

Todo mundo falou e escreveu bastante sobre Piquet capotando nove vezes na reta oposta do circuito goiano. Todo mundo apresentou suas versões pessoais, pretensamente definitivas e elucidativas. O que ninguém considerou, porque isso não se nota claramente é que, no toque que originou todo o episódio, Baptista teve o pneu dianteiro esquerdo furado – foi o que fez seu carro apontar estranhamente para a esquerda e catapultar Piquet para a sequência talvez mundialmente recordista de seis segundos e meio para nove capotagens no ar e no solo.

Foi, repito, o acidente de imagem mais espetacular que narrei. Usei essa expressão durante a narração para o Terra, aliás, e soube horas depois que, nos boxes, Nelson Piquet reagiu a esse meu termo com um sonoro palavrão. Pelo que reza a lenda, não deixa de ser nota digna ao currículo de um narrador ou jornalista ser xingado por Nelson. Há que se relevar a violenta carga de emoções a que o ex-piloto se submeteu vendo pela TV seu rebento voando pelos ares. Sei que não foi pessoal, Piquet e eu mal trocamos meia dúzia de palavras até hoje.

Nelson voltou a apresentar, em pleno momento de maior tensão a que a carreira de Pedrinho o submeteu, postura digna de um campeão. Manteve-se tão sereno quanto possível, sem tentar disfarçar o semblante tenso diante dos LEDs que transmitiam a corrida para os boxes. Até que decidiu caminhar, correr, até o local do acidente, jornada em que foi acompanhado pelo amigo Dibo. Superou a limitação decorrente do acidente de 23 anos atrás em Indianápolis e apertou o passo em boa parte do trajeto de 600 ou 700 metros. Nos últimos, ensaiou uma corrida.

Foi Dibo quem me confirmou, minutos depois, que eu estava certo na impressão manifestada a quem assistia à corrida. Depois de chegar ao carro, examinou a situação num rápido golpe de vista, afastou-se e respirou aliviado, sensação denotada por sua expressão corporal , captada pelas câmeras da geradora de imagens Master/CATVE. Nelson sabe muitíssimo bem como esse negócio funciona. Conhece mais desse riscado que qualquer um de nós. Só reassumiu contato com a situação depois que os médicos tiraram seu filho do carro e o puseram na ambulância.

Pedro viu o pai e perguntou o que e por que havia acontecido. “Fica tranquilo, filho, está tudo sob controle”, respondeu, enquanto tratava de embarcar naquela viatura médica que não devia saber, até então, para onde iria. Horas depois de rodopiar pelos ares, o garoto postou nas redes sociais da internet uma foto de seu rosto roxo e inchado. Sorria, na foto. “Tudo certo, pessoal, pequeno susto, estou ótimo aqui. Obrigado por todo o apoio”, legendou. Os vídeos com as imagens do acidente são compartilhados em larga escala em todos os canais.

Convivo com Pedro de forma mais frequente desde o começo do ano passado, quando estreou na Fórmula 3. Exceção a cumprimentos breves e quase protocolares, foi na última sexta-feira que de fato conversei com ele pela primeira vez. Sem ter disputado as duas etapas anteriores, já não tinha, em termos práticos, chance de título no Porsche GT3 Cup. “Seu campeonato já era, você está aqui atrás de quê?”, perguntei-lhe. “Disputa, ué. Eu quero disputa”, falou, rindo.

No sábado, venceu. Ontem, levou o maior susto da vida. Como bom Piquet que é, tirou de letra.

 

Por Luc Monteiro

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