Exclusivo: Barrichello clama por melhor formação de pilotos no Brasil

“Precisamos trabalhar com a CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) para colocarmos um pouco mais de limite e respeito”, acredita campeão da Stock Car

Há vida após a Fórmula 1? Para o piloto que possui o maior número de participações na história da categoria máxima do automobilismo, não só há vida como muito sucesso. Rubens Barrichello, contrariando as máximas do automobilismo de que pilotos de Fórmula não conseguem bom desempenho em carros de turismo, se sagrou campeão da Stock Car logo em sua segunda temporada completa.

Atualmente o piloto briga pelo título de 2015 utilizando mais uma vez sua grande aliada de 2014: a constância. Finalizando seis das sete corridas até aqui no Top 10, o paulista ocupa a terceira posição no campeonato a apenas 10 pontos do líder Júlio Campos.

Com exclusividade, o Motorsport.com foi saber do piloto da Full Time como foi sua transição bem-sucedida da maior categoria do mundo para a maior do Brasil, onde se tornou campeão e vencedor da Corrida do Milhão no ano passado. Rubens também falou da formação de pilotos no Brasil, e cobrou uma postura mais rígida da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo).

Motorsport: O que mudou como campeão da Stock Car? Pessoal já está te dando mais portadas?

Rubens Barrichello: Não [risos]. Na verdade, tenho me sentido cada vez mais preparado na Stock Car. Você aprende com quem você está lidando. Tem uns que são mais pesados, outros mais tranquilos e aí você vai desenvolvendo sua corrida na boa. Nessa corrida de Curitiba tive um nono lugar na primeira prova. Decidi não usar os “pushes” que tinha, porque ganharia uma posição só. Preferi ter a chance de ganhar a segunda corrida. Estamos bem colocados na busca da liderança, na busca de mais um campeonato. Queremos ganhar mais corridas. O meu trabalho dentro da equipe também tem sido muito legal.

Motorsport: Você é o único piloto que fez carreira expressiva na Fórmula 1 a ser campeão da categoria. Qual foi o seu truque na adaptação, coisa que você agora tem na mão e os outros não conseguiram?

RB: Acho que é questão de acostumar com o carro. É quase como se eu tivesse usado todo o meu primeiro ano para aprendizado, sem olhar para os resultados. Fui oitavo no primeiro ano, que não é um resultado para se jogar fora. Fui segundo em Salvador e tal. Mas minha equipe com o Maurício Ferreira é muito boa e me deu grandes ensinamentos. Sempre pensávamos: o que precisa para o Stock ser rápido? É frear forte? É carregar velocidade? Então, eles me ensinaram tudo que podiam para que eu adaptasse os meus hábitos de Fórmula 1 e mudasse meu estilo para me acostumar com o Stock Car. No primeiro ano fizemos muitas besteiras, mas eram besteiras calculadas. Saíamos com acertos diferentes e experimentamos diversas coisas, isso me ensinou bastante. No segundo, usamos isso como ajuda. Foi um grande aprendizado.

Motorsport: Conversando com colegas jornalistas de todo mundo, sempre me perguntam o que eu acho da Stock Car. Quando descrevo a categoria, eles têm interesse em conhecer mas demonstram uma falta de conhecimento do quão capaz é este grid. Com toda a sua experiência internacional, como você classificaria a Stock Car no quesito de competitividade e de diversão em relação a outras?

RB: As categorias de base que te levam para a Fórmula 1 são muito competitivas. Quando passei pela Fórmula Opel, por exemplo, tínhamos pré-classificação. Tínhamos carros parecidos e regulamento que limitava bastante, então tinha muita competitividade. Na Fórmula 3, você tem um campeonato ultracompetitivo, mas já tem diferença de motores. O cara que tem o equipamento bom já consegue se destacar mais. A GP2 hoje em dia é muito competitiva, mas ela tem uma limitação. Tem equipes que conseguem fazer seus pilotos andarem melhor. Aí tem a Fórmula 1 que é o que a gente sabe: carro bom com piloto médio consegue resultado melhor do que piloto bom em carro não tão competitivo. A Stock tem dois tipos de bolha, a da Peugeot e da Chevrolet. A diferença é mínima. Tem um tipo de chassi, um tipo de motor – que é muito bem regulado – e um tipo de pneu. Então, você precisa aprender o que você quer do carro, porque em um segundo entram 25 carros. Dito isso, eu falo que é uma das categorias mais competitivas pelas quais passei na minha vida. Temos pilotos muito bons, há a chance de 10 ou 12 serem campeões. Alguns estão há mais tempo, outros são muito talentosos. Isso dá uma combinação muito legal. É muito competitivo mesmo.

Motorsport: Como você avalia o horizonte da Stock Car? Vê ela consolidada? Há margens para crescimento? Existem brechas perigosas de queda?

RB: Não vejo como uma coisa sagrada, no sentido de que vai dar tudo certo. Temos sempre que melhorar. Trabalhar cada vez mais em conjunto com a CBA para que nós possamos ter um grid com um pouco mais de respeito e limite. Hoje vemos os garotinhos saindo do kart, indo para fora e tomando bandeira preta depois de duas corridas. O Brasil está um pouco solto demais nas regras de como se impor aos novos pilotos. Como vou colocar para o meu filho o que ele pode ou não fazer? Só falando. Até castigo os meus às vezes, deixo eles estudando um pouco [risos]. Mas o automobilismo está precisando disso, e precisamos trabalhar em conjunto com a CBA. Hoje a juventude está indo bastante para a Stock Car. Antigamente todo mundo acabava a carreira indo para a Stock Car. Temos o Fraga, que tem 19 anos, e outros jovens que estão querendo a Stock Car. Então, é tudo muito legal, porque é uma categoria que vai sobreviver. Isso pode fazer o piloto ser profissional e ganhar o seu dinheiro. Mas é importante que nós continuemos nesta evolução.

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Categorias Stock Car Brasil
Tipo de artigo Entrevista