Pipo Derani: "pouco a pouco a gente chega lá"

Vencedor das duas principais provas de endurance no início de 2016, Pipo Derani chega com outro status para a segunda temporada no Mundial de Endurance, desta vez com a ESM Tequila Patrón; confira entrevista exclusiva para o Motorsport.com Brasil

O início de 2016 não poderia ter sido melhor para Pipo Derani. O brasileiro, de contrato assinado com a ESM Tequila Patrón para a segunda temporada no Mundial de Endurance, foi se aventurar nas duas tradicionais provas de longa duração nos Estados Unidos - as 24 Horas de Daytona e as 12 Horas de Sebring.

Derani, ao lado de Johannes van Overbeek, Scott Sharp e Ed Brown, venceu as duas provas que abriram a temporada do WeatherTech United SportsCar e agora parte para a disputa do WEC na classe LMP2, com Ryan Dalziel e Chris Cumming, a partir do próximo domingo, quando as 6 Horas de Silverstone marcam a abertura da quinta edição do campeonato.

Antes de partir para a Europa, o brasileiro concedeu uma entrevista exclusiva ao Motorsport.com Brasil, na qual que abordou as expectativas para a temporada no WEC e o impacto das vitórias nos EUA, além da carreira. Confira:

LMP2

A classe LMP2 promete ser uma das mais disputadas nesta temporada 2016 do WEC, com muitas equipes e trios fortes, que estarão na briga pelo título. Derani tem consciência disso e ressalta que cada detalhe será fundamental para a vitória ou para a derrota.

“Será complicada, uma briga de montadoras e o piloto ‘silver’ (amador) será fundamental. A regra, no entanto, é um tanto quando polêmica. O (Roman) Rusinov, no ano passado, era profissional; neste ano, ele conseguiu se classificar como ‘silver’. E neste caso, a diferença entre ele e um piloto amador – por mais que este seja muito bom – pode ser mais importante do que ter um carro veloz, podendo definir o campeonato.”

“Nesta temporada, teremos pilotos de fábrica na LMP2, como o (FiIipe) Albuquerque - correndo com Bruno Senna - e o René Rast, dois pilotos Audi. Será um campeonato extremamente competitivo, com chassis diferentes, e várias nuances podem influenciar no resultado.”

“Para 2017, com as novas regras para a LMP2, os chassis deverão ter largura máxima de 1,90m. O Oreca, utilizado pela G-Drive, foi introduzido no ano passado já com essa largura, enquanto o Ligier que utilizamos ainda foi construído com base no regulamento atual, que permite largura de até dois metros. Isso gera mais arrasto aerodinâmico para nós em retas, então em uma pista como Le Mans eles têm vantagem.”

“Nosso carro gera uma pressão aerodinâmica muito boa, o que deve nos ajudar em pistas ‘normais’, como Silverstone. Mas ainda é difícil saber como será o campeonato, a Oreca estará forte e teremos que trabalhar bastante.”

“Confio plenamente em minha equipe, creio que temos um pacote bom e seguro de pilotos. Por outro lado, outras equipes também terão pilotos fortes, mas pouco a pouco a gente chega lá.”

Importância das vitórias nos EUA

Derani chega para a abertura do WEC com as vitórias em Daytona e Sebring no bolso, triunfos que ele considera importantes para a carreira - nenhum piloto havia conseguido até então vencer as duas provas, na estreia e no mesmo ano.

O piloto da ESM Tequila Patrón não coloca uma vitória acima da outra, mas destaca cada uma com a respectiva importância, dadas as singularidades de cada prova. “Acho que Daytona foi um marco na minha carreira, pois foi minha primeira prova 100% profissional no automobilismo, minha primeira corrida com a Tequila Patrón e já venci uma prova tão tradicional – minha primeira vitória nos protótipos.”

“Para Sebring, sofremos uma queda de desempenho devido ao 'Balance of Performance' e muita gente dizia que a vitória em Daytona teria acontecido somente pelo carro. Então a vitória em Sebring, ainda mais com as três ultrapassagens nos dez minutos finais, foi como uma resposta a essas pessoas e por isso foi bastante importante."

“Tive um estresse físico em Sebring, devido às ondulações da pista – que desgastam bastante - e pelo trabalho que tive que fazer para recuperar as posições perdidas, especialmente nas duas horas finais da prova, quando assumi o carro para terminar a corrida.”

“Fiz meu nome nos Estados Unidos, pois ninguém me conhecia lá antes das duas corridas. Foram provas extremamente bacanas e ficarão guardadas para sempre.”

Recepção no WEC após vitórias nos EUA

Os triunfos nos Estados Unidos deram, sem dúvida, outro status para Derani, que percebeu isso ao voltar para a Europa já após Daytona, no evento de apresentação do WEC e das 24 Horas de Le Mans deste ano, e para o Prólogo em Paul Ricard, já com a adição do triunfo em Sebring.

“A recepção foi algo bem legal. O pessoal já me conhecia de vista, mas agora eles sabem realmente quem eu sou. Não só pilotos, mas equipes e dirigentes. Depois de Daytona, Rubens Barrichello veio falar comigo e disse que ‘você é tão bom quanto sua última corrida’, que o meu momento era muito bom e disse para eu aproveitar, o que achei muito legal da parte dele."

“Os dirigentes estão sempre procurando o melhor. Daytona e Sebring acontecem em uma época que não acontecem outras corridas. Se eu fiz algo bom o suficiente para chamar a atenção deles, eles estão de olho. Mas tenho um manager que cuida da minha carreira, então procuro focar 100% no meu trabalho”, disse Derani, que reconhece que a pressão em cima dele aumentou após o sucesso nos EUA. Entretanto, o brasileiro afirma que isso não é algo que ocupe os pensamentos dele.

“Não paro para pensar nisso. Tenho total confiança nas pessoas com quem trabalho, no que posso fazer - o resultado vem em cima disso. Obviamente, após as vitórias nos EUA, os adversários vão querer bater o vencedor de Daytona e Sebring, é normal. Em alguns dias vou vencer, em outros vou perder. A pressão existe, mas não penso nisso”

Desbravador?

Derani iniciou a carreira direcionando-a para os monopostos, chegando a andar na F3 Europeia, mas deu uma guinada nos rumos profissionais antes mesmo de tentar uma vaga na Fórmula 1, como quase todos os pilotos brasileiros e, aos 22 anos, já está em uma categoria que, até então, era vista como algo para um momento posterior na carreira.

O Motorsport.com Brasil perguntou, então, se o piloto se considera um desbravador no sentido de mostrar para outros pilotos jovens que é possível sem bem-sucedido no automobilismo mesmo sem chegar à F1.

“Vai muito da personalidade de cada um, do que cada um quer pra si. Sempre tive claro em minha cabeça que eu queria ser um profissional do automobilismo. No entanto, iniciei minha carreira querendo chegar à Fórmula 1. Mas creio que minha carreira nos monopostos foi mal projetada – por falta de experiência de todos os envolvidos. Não tivemos pilotos em minha família antes, era tudo muito novo para nós.”

“No entanto, não culpo ninguém pelos erros cometidos. Errar é humano e, nesta carreira, os erros vêm com mais facilidade. Com o passar dos anos e com as condições exigidas para ser piloto de Fórmula 1, comecei a olhar para os lugares nos quais eu poderia concretizar meu objetivo de ser piloto profissional em um campeonato de alto nível.”

“Então eu comecei a olhar para o endurance em uma idade que poucos haviam olhado até então. Hoje, pouco mais de um ano depois do meu início no WEC, você já vê pilotos da F3, da GP3, olhando para o endurance mesmo antes de tentar a GP2. Acho que estou abrindo um caminho, mas realmente depende de cada um e espero que outros pilotos consigam alcançar o que eu estou conseguindo agora.”

Com colaboração de Gabriel Lima

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Categorias WEC
Pilotos Pipo Derani
Tipo de artigo Entrevista