Análise: o custo real do patrocínio da PDVSA a Maldonado

Pastor Maldonado pode usufruir de boas cifras da gigante estatal venezuelana, mas tal generosidade é sentida por seus compatriotas que acabam voltando para casa, como explica Kate Walker

Nos últimos anos a inflação extrema, a má gestão financeira e a escassez de bens e serviços básicos tornaram a vida do cidadão venezuelano mais difícil. As recentes eleições tendem a mudar o panorama político, mas tal alteração será lenta.

Enquanto o partido de oposição agora tem o controle da Assembleia, o presidente Nicolas Maduro anunciou a criação de um "parlamento paralelo", o que observadores políticos têm chamado de uma última tentativa para segurar alguma forma de autoridade legislativa.

Mas os resultados das eleições não são o único desafio a ser enfrentado por Maduro e seus aliados. Graças a investigações em curso sobre as alegações de que o governo venezuelano utilizou a PDVSA para "saquear bilhões de dólares do país por meio de propinas e outros esquemas", ao mesmo tempo que "tentou determinar se a PDVSA e suas contas bancárias no exterior fossem utilizadas para outros fins ilegais, incluindo os regimes de moeda no mercado negro e lavagem de dinheiro da droga".

Corrupção abundante

A PDVSA tem sido uma significativa investidora no automobilismo mundial. Além do patrocínio pessoal de Pastor Maldonado na F1, a companhia chegou a apoiar Rodolfo Gonzalez na GP2 e EJ Viso, na Indy. Além disso, patrocinou a equipe Lazarus na GP2 em 2012.

As atuais investigações norte-americanas não alegam qualquer irregularidade no patrocínio aos esportes da PDVSA, mas possui foco na corrupção em todos os níveis da companhia.

De acordo com matérias do Wall Street Journal, quando os diretores de uma empresa de construção espanhola conseguiu uma reunião com o então presidente da PDVSA, Rafael Ramirez (hoje o embaixador da Venezuela nas Nações Unidas) para discutir um projeto de energia elétrica, eles foram informados de que se não tivessem 150 milhões de dólares em propinas na mão, que poderiam voltar ao aeroporto.

Ramirez tem sido apontado como um dos principais alvos dos inquéritos em curso. Chavista, certa vez ameaçou "liquidar os inimigos da revolução" e construiu uma fortuna substancial durante o período em que esteve à frente da PDVSA. Também foi marcado por acusações de práticas de negócios corruptos, incluindo a colocação de membros de sua família em altos cargos na companhia.

Promotores de quatro estados americanos se reuniram no início deste ano para compartilhar evidências através do número de inquéritos relacionados com a PDVSA. Essa reunião também envolveu funcionários da Agência de Repressão às Drogas, do Departamento de Segurança Interna e o FBI.

As investigações sobre corrupção na PDVSA estão em curso, mas o DEA apresentou acusações de tráfico de drogas contra dois sobrinhos de Maduro e o chefe da agência de fronteiras da Venezuela está declaradamente próximo na linha de fogo, por seu suposto papel em facilitar o fluxo de narcóticos em seu país.

Presidente desafiador

Para Maduro, as acusações e as investigações são elementos utilizados para inflamar ainda mais o sentimento antiamericano.

Assim como Chavez, Maduro considerou conveniente culpar os Estados Unidos e sua "guerra econômica" ao que leva o país ter uma inflação de pelo menos 70% (embora o Fundo Monetário Internacional estime em 160%) e uma diminuição nas atividades econômicas em 10% neste ano.

Ramírez já se utilizou desta abordagem, usando o Twitter para negar as acusações de corrupção, dizendo que sofrem ataques e que quem os acusa são considerados "inimigos do povo", que visam desestabilizar o regime, em retaliação por Chávez ter renacionalizado a empresa de petróleo, com vista a orientar seus lucros de volta para o povo venezuelano.

É pouco provável que as consequências das investigações sejam sentidas no paddock da F1. A jurisdição americana sobre as empresas venezuelanas é inexistente.

Mas o perigoso estado da economia venezuelana significa que um efeito dominó seja suscetível em toda a população, além da fé da comunidade internacional na capacidade do país de pagar suas contas.

 

Pastor Maldonado, Lotus F1 Team on the grid
Pastor Maldonado, Lotus F1 Team

Photo by: XPB Images

Patrocinar ou não patrocinar?

A PDVSA tem sido o braço financeiro do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e com a gigante do petróleo em apuros, será impossível o governo venezuelano garantir o crédito necessário para manter o fluxo atual de alimentos e medicamentos para o país.

A falta de produtos de necessidades básicas na Venezuela vem causando agitação social há mais de um ano, com relatos de cidadãos que morrem em lutas de faca para garantir os últimos pacotes de papel higiênico e pães deixados nas prateleiras das lojas.

O PSUV mantém um certo grau de apoio popular daqueles que se beneficiaram de riquezas da PDVSA durante os anos de Chávez, mas como as recentes eleições legislativas têm mostrado, o apoio popular diminuiu em face da escassez de produtos vitais e o aumento da criminalidade em um país desesperado.

Os efeitos da criação de um novo parlamento "alternativo" de Maduro continuam sendo observados.
Mas com o sentimento público agora focado em reparar os danos feitos na economia nacional nos últimos anos, o governo será forçado a escolher entre usar a PDVSA para promover a Venezuela na F1 através de Maldonado ou desviar os fundos para manter os venezuelanos felizes em casa.

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Categorias Fórmula 1
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Tipo de artigo Análise